Minha mãe leu a mensagem de Lídia três vezes antes de me responder.
“Ela quer mesmo falar comigo ou está fazendo isso pela mãe?”
Eu não podia garantir os motivos de minha tia.
Respondi apenas o que ouvira: Lídia tinha pedido o encontro pessoalmente e dissera que não era por Tereza.
Rosa aceitou dois dias depois.
Escolheram uma lanchonete tranquila, num horário em que o movimento fosse pequeno.
Dessa vez, Lídia concordou que eu ficasse numa mesa próxima com Júlia, para que as duas pudessem chamar alguém se precisassem.
Tereza não foi.
Disse que o encontro era das filhas e que não queria ocupar um lugar que elas ainda estavam tentando descobrir como dividir.
Minha mãe chegou primeiro.
Ajeitou a alça da bolsa, mexeu no guardanapo e conferiu o celular tantas vezes que perdi a conta.
Quando Lídia entrou, Rosa se levantou de uma vez.
As duas ficaram olhando uma para a outra, sem abraço.
Havia semelhanças que só apareceram quando ficaram lado a lado: a curva do sorriso, as sobrancelhas e o gesto de inclinar a cabeça para ouvir.
— Você cortou o cabelo — disse Rosa, sem pensar.
Lídia sorriu com os olhos marejados.
— Umas cinquenta vezes desde a última vez que você me viu.
As duas riram, e então choraram.
Não foi a reunião bonita que eu imaginara quando era criança.
Foi desajeitada, cheia de intervalos, com duas mulheres tentando descobrir por onde se começa a conversar depois de trinta e dois anos.
Rosa sentou-se novamente.
— Eu achei que você não quisesse saber de mim.
— Eu pensei que você soubesse que nossa mãe tinha me mandado embora.
— Ouvi a briga. Mas depois ela disse que você tinha escolhido sair.
Lídia esfregou os dedos na borda da mesa.
— Eu devia ter procurado um jeito de falar com você. Era mais nova do que eu, ficou sozinha naquela casa. Eu sei disso agora.
Minha mãe balançou a cabeça.
— Não quero que você carregue a culpa que é dela. Eu só preciso dizer que senti raiva. Quando terminei a escola, quis contar a você. Quando casei, também. Depois, quando Helena nasceu, pensei que você já não iria querer saber.
— Eu teria querido — respondeu Lídia.
As duas ficaram em silêncio por um momento.
Rosa me contou depois que, sentada diante da irmã, percebeu como seria injusto pedir que ela se lembrasse imediatamente da menina que deixara para trás.
Ela própria já não era aquela adolescente.
Tinha envelhecido, criado uma filha e aprendido a falar de suas mágoas apenas quando encontrava coragem.
As duas precisariam conhecer as mulheres que haviam se tornado, e não apenas procurar uma à outra dentro da lembrança de infância.
Lídia contou que, nos primeiros anos, evitava perguntar por Rosa porque achava que a irmã repetiria as palavras da mãe.
Quando a vida ficou mais estável, sentiu vergonha de aparecer de repente depois de tanto tempo.
Era uma explicação, não uma justificativa.
— Eu também podia ter tentado — disse minha tia. — Não tentei o suficiente com você.
Minha mãe tirou um lenço da bolsa.
— Acho que nós duas aprendemos a ter medo da mesma porta.
Fiquei olhando para elas enquanto Júlia embalava uma conversa baixa comigo sobre Miguel.
Pela primeira vez, compreendi que o silêncio entre aquelas irmãs não era um buraco vazio.
Estava cheio de aniversários não compartilhados, notícias que perderam o caminho e perguntas que ninguém fez.
Quando terminaram o café, Rosa perguntou sobre o trabalho de Lídia.
Minha tia contou que passara anos costurando para outras pessoas e, mais tarde, abrira um pequeno ateliê de ajustes com uma só funcionária.
Falou do nascimento de Júlia e de como aprendera, devagar, a aceitar ajuda.
Rosa contou sobre meu pai, sobre mim e sobre a época em que Tereza a apoiara quando eu fiquei doente na infância.
Não tentou esconder que a mãe também tivera gestos de cuidado.
Lídia ouviu sem se irritar.
— Eu não preciso que ela tenha sido ruim com você para reconhecer que foi ruim comigo — disse.
A frase ficou com minha mãe por vários dias.
Antes de sairmos, Rosa fez uma pergunta que vinha ensaiando desde a manhã.
— Podemos nos falar sem que toda conversa passe pela nossa mãe?
— Quero isso — respondeu Lídia. — Só não sei ainda como se faz.
Trocaram números e combinaram começar sem promessas grandes.
Uma mensagem de vez em quando, talvez um café no mês seguinte.
Nada de fingir intimidade que precisaria ser reconstruída.
Na calçada, Júlia me mostrou uma foto recente de Miguel, tentando pegar o próprio pé.
Lídia se aproximou e olhou a imagem por cima do ombro da filha.
— Ele anda querendo puxar todas as pontas da manta — comentou.
Foi então que Rosa perguntou sobre o remendo vermelho.
— Você guardou mesmo aquele cobertor?
— Guardei. Não porque esqueci o que aconteceu. Guardei porque houve um tempo em que nossa mãe me cobria com ele quando eu tinha febre. As duas coisas são verdadeiras.
Minha mãe chorou de novo.
Lídia encostou a mão no braço dela por um instante, sem oferecer uma solução para o passado.
Naquela noite, contei a Tereza como tinha sido o encontro.
Ela me ouviu falar do ateliê, de Júlia e das irmãs trocando mensagens.
Perguntou uma vez se Lídia tinha falado dela.
— Falou da manta — respondi. — Disse que não quer apagar o que foi bom só porque o que veio depois machucou muito.
Minha avó ficou quieta.
— Gostaria de pedir licença para vê-la de novo — disse. — Mas tenho medo de que isso pareça cobrança.
— Então espere até ela dizer o que quer.
Na sexta-feira seguinte, Júlia enviou uma mensagem inesperada.
Lídia estava disposta a visitar a casa de Tereza no domingo, junto de Rosa e de mim.
Não queria convidados, discursos nem fotografias.
Pediu também que minha avó não preparasse uma festa para recebê-la.
Eu mostrei a mensagem a Tereza.
Ela leu até o fim e ficou muito tempo olhando para a última linha.
“Não sei se vou conseguir entrar”, Lídia escrevera por intermédio de Júlia. “Se eu parar no portão, por favor, não me façam escolher depressa.”
Aquela visita não seria uma comemoração; seria o primeiro teste de uma porta que permanecera fechada por décadas.
Para saber se Lídia conseguiu atravessá-la sem perder o direito de decidir, acompanhe a Parte 6.













