Tereza não quis falar sobre aquela manhã antes do encontro com Lídia.
Eu poderia ter insistido, mas percebi que não se tratava de um segredo que me pertencesse.
Minha tia tinha feito a pergunta, e era a ela que minha avó devia a resposta.
No sábado, saímos cedo para Contagem.
Tereza vestia uma blusa azul que usava nas ocasiões importantes e levava na bolsa a cópia manuscrita da primeira carta, dobrada duas vezes.
Não tinha flores, presentes nem fotografias antigas.
— Não quero chegar com coisas para fazê-la se sentir obrigada a me receber — explicou.
O café ficava numa rua tranquila, perto de uma praça.
Júlia já nos esperava na calçada, sem Miguel.
Disse que o menino estava com o pai e que Lídia tinha chegado alguns minutos antes.
— Minha mãe está nervosa — avisou. — Se ficar difícil demais, ela vai embora.
— Ela pode ir embora quando quiser — respondeu Tereza.
Vi minha avó atravessar a porta de vidro.
Por um instante, olhou para uma mesa junto à janela.
Lá estava uma mulher de cabelos escuros presos na nuca, com as mãos fechadas ao redor de uma xícara.
Mesmo à distância, reconheci nela alguma coisa de minha mãe.
Não era o rosto inteiro, nem a postura.
Era a maneira de erguer os olhos antes de falar.
Tereza parou diante da mesa, esperando um sinal.
Lídia indicou a cadeira vazia.
Júlia e eu fomos até a praça.
Caminhamos devagar, falando pouco.
Eu ainda não conhecia a história de minha tia além do pedaço que nossa família tinha contado sobre ela.
Júlia conhecia outro pedaço, feito de aniversários, trabalho, brigas comuns e da vida que Lídia construíra sem Tereza.
— Ela sempre foi uma boa mãe? — perguntei, antes de pensar se a pergunta era injusta.
Júlia não se ofendeu.
— Foi uma mãe presente. Às vezes rígida. Mas nunca me fez acreditar que eu precisava merecer um lugar em casa.
A resposta ficou comigo.
Mais tarde, quando ouvi o relato das duas, compreendi o que acontecera dentro do café.
Tereza começara dizendo que não esperava perdão.
Lídia pedira que, por favor, não repetisse aquela frase a cada cinco minutos.
— Eu entendi que você não está cobrando — teria dito. — Agora preciso saber se consegue me ouvir sem me explicar o que eu devia ter sentido.
Minha avó se calara.
Então Lídia contara o que estava tentando fazer quando tinha dezenove anos.
Queria trabalhar numa pequena confecção em Contagem e dividir um quarto com uma colega até conseguir pagar o próprio aluguel.
Não estava fugindo da família, nem dizendo que deixaria de ajudar em casa.
Queria aprender a viver com as próprias escolhas.
Tereza, que havia criado as duas filhas sozinha depois da morte do marido, escutara aqueles planos como se fossem a notícia de outra perda.
— Eu achei que você queria se livrar de nós — admitiu.
— Eu queria que você me perguntasse como pretendia pagar o aluguel — respondeu Lídia. — Você preferiu dizer que eu nunca mais voltasse.
A frase não pedia defesa.
Minha avó baixara os olhos.
Lídia prosseguira.
Contara que, durante a discussão, repetira mais de uma vez que queria continuar visitando Rosa e ajudando com as despesas quando fosse possível.
A mãe não escutara essa parte.
Em vez de perguntar como funcionaria a mudança, interpretara cada plano como um desafio à própria autoridade.
Ao lembrar disso, Tereza finalmente compreendera que o medo de ficar sozinha não lhe dava o direito de transformar o futuro da filha numa ameaça.
Para Lídia, aquela descoberta chegava tarde, mas ainda importava ouvi-la sem desculpas e sem a exigência de que o sofrimento acabasse ali.
Naquela noite, saíra com uma mochila, a carteira de identidade e algum dinheiro guardado.
Tinha ido para a casa de Cecília, uma costureira que lhe oferecera trabalho temporário e um lugar para dormir.
Na manhã seguinte, Cecília telefonara para Tereza, avisando que a moça estava em segurança.
Tereza lembrava-se da ligação.
Lembrava-se até de ter olhado para o relógio da cozinha enquanto a mulher falava.
— Ela me pediu para ir conversar com você — confessou. — Eu disse que, se quisesse voltar, você conhecia o caminho.
Lídia ficou algum tempo sem responder.
— Cecília me contou isso. Eu esperei uma semana. Todos os dias achei que você fosse aparecer para dizer que tinha se excedido.
A minha avó não apareceu.
E Lídia, depois de sete dias esperando, alugou o quarto com a colega, começou a trabalhar e parou de olhar para a porta a cada barulho no corredor.
— Eu não queria que você implorasse para voltar — disse Tereza. — Queria que viesse por vontade própria. Hoje vejo que eu tinha transformado minha vontade numa condição para você continuar sendo minha filha.
— Você sabia onde eu estava — respondeu Lídia. — Esse foi o pedaço mais difícil.
Minha avó não tentou contestar.
Do lado de fora, Júlia e eu vimos as duas se levantarem depois de quase uma hora.
Lídia saiu primeiro.
Quando se aproximou, me olhou com atenção.
— Você é Helena?
— Sou.
— Sua mãe fala muito de você?
A pergunta me surpreendeu.
— Fala. Mais do que eu gostaria em algumas reuniões de família.
Lídia riu baixinho.
Foi uma risada curta, mas aliviou a tensão de seu rosto.
Minha avó permaneceu alguns passos atrás, como se ainda esperasse autorização para se aproximar.
Lídia olhou para Júlia.
— Quero ir para casa agora.
— Claro, mãe.
Antes de partir, porém, voltou-se para mim.
— Helena, diga a Rosa que eu gostaria de falar com ela. Não hoje, e não porque nossa mãe pediu. Quero ouvir a versão da minha irmã.
Prometi que transmitiria o recado sem pressioná-la.
Tereza levou a mão à bolsa, mas não tirou a carta dobrada.
— Obrigada por me ouvir — disse apenas.
Lídia assentiu e seguiu com Júlia pela calçada.
Na volta para Belo Horizonte, minha avó me contou a história da ligação de Cecília, sem omitir a própria resposta.
Eu entendi que sua culpa não começara nem terminara naquela frase cruel dita durante a briga.
Continuara na manhã seguinte, quando alguém lhe oferecera uma forma concreta de consertar parte do dano.
E agora Lídia queria falar com Rosa, a outra pessoa que havia crescido acreditando numa ausência escolhida.
Para acompanhar o encontro das duas irmãs e a verdade que precisavam dizer uma à outra, continue na Parte 5.













