Li a pergunta de Lídia em voz alta uma segunda vez.
Minha avó continuou olhando para a tela, como se houvesse outra frase escondida entre aquelas palavras.
— Ela não perguntou por que a expulsei — murmurou. — Perguntou o que aconteceu com a irmã depois.
— Então é isso que você precisa responder.
Tereza pediu que eu me sentasse.
Por muitos anos, imaginei que os silêncios da minha família fossem feitos de acontecimentos que ninguém conhecia direito.
Naquela manhã, descobri que também eram feitos de decisões pequenas, repetidas por pessoas que sabiam exatamente o que estavam calando.
Minha avó me contou que Rosa tinha quinze anos quando Lídia saiu de casa.
Na noite da briga, a mais nova ficou no corredor, de camisola, ouvindo a mãe mandar a irmã embora.
Depois correu para o quarto e trancou a porta.
— No dia seguinte, ela perguntou se Lídia viria buscar as roupas — contou Tereza. — Eu disse que não sabia.
— E depois?
— Perguntou se podia ligar para uma amiga da irmã. Eu disse que não adiantava, porque Lídia tinha escolhido ir embora.
— Mas tinha sido você quem mandou.
— Eu sei.
Tereza apertou a caneta, que ainda estava sobre a mesa.
— Rosa perguntou se a irmã não gostava mais dela. Eu devia ter dito que uma briga entre uma mãe e uma filha não apagava o amor entre irmãs. Em vez disso, respondi que Lídia precisava aprender a valorizar a família.
Senti uma raiva que não esperava sentir de minha avó.
A mulher que cuidara de mim quando tive febre, que me ensinara a escolher mangas maduras e que guardava meus desenhos de infância, também tinha deixado uma menina de quinze anos acreditar que não era amada.
— Você sabia que não era verdade — falei.
— Sabia que tinha mandado Lídia sair. Não sabia o que ela sentia. Mesmo assim, falei como se soubesse.
Era uma distinção dolorosa, mas importante.
Eu não queria que Tereza se defendesse por ter tido medo.
Queria que ela entendesse o tamanho das escolhas que fizera depois da briga.
— Precisa contar isso à Rosa antes de responder a Lídia.
Minha avó fez um movimento de recuo.
— Ela saiu daqui sem querer olhar para mim.
— Pode perguntar se aceita ouvir. Se não aceitar, você espera.
Enviei uma mensagem a minha mãe dizendo que Lídia fizera uma pergunta sobre ela e que Tereza queria responder sem esconder nada.
Rosa respondeu apenas no fim da tarde.
“Vou passar aí depois do trabalho. Não quero que ninguém fale no meu lugar.”
Quando chegou, trouxe uma pequena sacola de pão de queijo.
Era um hábito antigo: mesmo zangada, minha mãe raramente aparecia de mãos vazias na casa de alguém.
Mas não ofereceu café, nem perguntou como estávamos.
— Pode falar, mãe — disse, sentando-se diante de Tereza.
Minha avó contou tudo.
Não repetiu que agira por amor nem que estava cansada naquela época.
Disse o que tinha falado à adolescente, o que omitira e quantas vezes, depois, deixara Rosa acreditar que a irmã partira sem se importar.
Minha mãe ouviu com os dedos apoiados no joelho.
Quando Tereza terminou, ela respirou fundo.
— Passei anos pensando que, se Lídia sentisse saudade, teria procurado por mim. Depois fiquei com vergonha de admitir que eu também nunca a procurei.
— Você era uma menina — respondeu Tereza.
— Eu era uma menina no começo. Depois virei adulta e continuei repetindo a mesma história para Helena.
Não havia acusação na voz dela.
Era pior: havia a constatação de que duas gerações tinham vivido dentro da mesma versão incompleta.
Rosa pegou um pão de queijo da sacola, partiu-o ao meio e não comeu.
— Quando Lídia saiu, eu fiquei com raiva dela. Mas também fiquei com raiva de você. Como era mais fácil continuar morando aqui se eu acreditasse que ela tinha escolhido ir embora, deixei a raiva de você guardada.
Minha avó tentou responder, mas minha mãe levantou a mão.
— Ainda não terminei. Se ela quiser me ver, eu vou. Se não quiser, não vou usar você como desculpa para obrigá-la.
Tereza assentiu.
Pela primeira vez naquele fim de semana, as duas conseguiram permanecer sentadas no mesmo cômodo sem tentar apressar uma reconciliação.
Redigimos a resposta juntas, mas minha avó insistiu em escrevê-la com a própria letra.
“Contei a Rosa que você tinha escolhido sair e que precisava aprender uma lição. Não contei que a mandei embora. Deixei sua irmã pensar que você havia deixado de gostar dela, mesmo sem ter o direito de falar por você. Já disse a verdade a Rosa. Desculpe também por isso.”
Mostrei a mensagem à minha mãe.
— É o que aconteceu — disse ela. — Pode mandar.
Júlia confirmou o recebimento, sem acrescentar uma palavra.
Os dias seguintes foram estranhos.
Minha avó voltou a cuidar das plantas da varanda; Rosa apareceu para levar alguns remédios que Tereza tinha encomendado.
As duas conversaram sobre assuntos simples, sem fingir que a ferida estava fechada.
Eu também tentei voltar à rotina, mas às vezes olhava para as fotos da minha infância e pensava em quem ficara sempre fora do enquadramento.
Na quinta-feira, Júlia me ligou.
— Minha mãe disse que a resposta de Tereza foi a primeira coisa concreta que ouviu dela em trinta e dois anos.
Não soube o que dizer.
— Ela aceita encontrar sua avó — continuou Júlia. — Num café em Contagem, no sábado. Só as duas no começo. Eu vou esperar do lado de fora, se ela precisar de mim.
Minha primeira vontade foi dizer que eu também queria conhecer minha tia.
Mas guardei o pedido.
— Vou perguntar a Tereza. E, se Lídia mudar de ideia, nós vamos respeitar.
Júlia ficou em silêncio por um momento.
— Tem outra coisa, Helena. Minha mãe disse que vai perguntar sobre o que aconteceu naquela noite, depois que saiu pela porta. Ela acha que sua avó nunca soube onde ela foi.
— E não soube?
— Isso é o que elas precisam esclarecer.
Desliguei e encontrei Tereza dobrando um pano de prato na cozinha.
Ela aceitou o encontro, mas, ao ouvir a última frase de Júlia, ficou pálida.
— Vó, você sabia onde Lídia estava naquela noite?
Tereza deixou o pano sobre a mesa.
— Eu soube na manhã seguinte — respondeu. — E é justamente isso que tenho mais vergonha de contar.
Para saber por que Tereza não buscou a filha quando ainda podia encontrá-la, leia a Parte 4.













