“Você acha que eu não vi sua mão dentro da minha bolsa?”
A bolsa de couro bateu contra a mesa com tanta força que duas pessoas na mesa ao lado olharam imediatamente para nós.
Eu ainda segurava a bandeja vazia.
O homem à minha frente, Renato Vasconcelos, já não parecia o cliente tranquilo que havia pedido filé, água com gás e café menos de uma hora antes.
O rosto dele estava vermelho.
“Eu não toquei na sua bolsa, senhor.”
“Não mente pra mim.”
Renato abriu o zíper com movimentos bruscos, remexeu tudo lá dentro e jogou um porta-cartões sobre a mesa.
“Estava aqui. Minha cartela de remédio estava aqui.”
Eu respirei fundo.
Trabalho como garçom há tempo suficiente para saber que discutir com um cliente irritado quase nunca melhora alguma coisa.
“Posso chamar a gerente.”
“Pode chamar a polícia também.”
Aquilo fez o salão ficar ainda mais silencioso.
Minha gerente, Patrícia, percebeu a confusão antes mesmo que eu precisasse fazer um sinal. Ela veio rapidamente até nós.
“Algum problema?”
Renato apontou para mim.
“Seu funcionário mexeu na minha bolsa.”
“Senhor, o Lucas estava atendendo esta mesa. O que exatamente está faltando?”
“Um medicamento.”
Patrícia me olhou.
Eu balancei a cabeça.
“Não toquei na bolsa.”
Renato soltou uma risada curta.
“Claro que não.”
Então ele se virou para Patrícia.
“Revista ele.”
Ela não mudou a expressão.
“Não vamos revistar funcionário no meio do restaurante.”
“Então chamem a polícia.”
Alguns clientes já fingiam olhar para os próprios celulares enquanto ouviam cada palavra.
Eu sentia o calor subir pelo pescoço.
Não porque tivesse medo de encontrarem alguma coisa comigo.
Eu sabia que não tinha pegado nada.
O problema era outro.
Uma acusação daquele tipo, feita em voz alta, podia ficar grudada em você mesmo depois de provarem que era mentira.
Foi quando lembrei da mulher.
Ela havia passado perto da mesa de Renato poucos minutos antes.
Elegante, talvez uns trinta e poucos anos, cabelo castanho preso e uma bolsa clara no ombro.
Eu não sabia se os dois estavam juntos.
Ela não tinha se sentado com ele.
Mas parou por alguns segundos perto da mesa.
Achei que fossem conhecidos.
Quando voltei da cozinha, ela já estava indo embora.
Renato acompanhou a saída dela com os olhos.
Na hora, não pensei nada sobre isso.
Agora pensei.
“Senhor Renato”, Patrícia disse, “tem certeza de que o medicamento estava na bolsa?”
“Absoluta.”
Ele abriu a bolsa novamente.
“Eu coloquei aqui.”
Enquanto ele apontava para o compartimento interno, alguma coisa perto do pé da cadeira refletiu a luz.
Inclinei a cabeça.
Era um pequeno envelope plástico transparente.
“Um momento.”
Deixei a bandeja sobre uma mesa vazia e me abaixei.
Renato percebeu ao mesmo tempo.
A mão dele se moveu depressa.
“É isso. Me dá.”
Peguei primeiro.
Dentro do plástico havia uma cartela de comprimidos.
Renato estendeu a mão.
“Está vendo? Eu falei. Era meu.”
Eu quase entreguei.
Quase.
Mas havia uma etiqueta branca colada no envelope.
E Renato parecia muito mais preocupado em tirar aquilo da minha mão do que satisfeito por ter encontrado o medicamento.
“Me dá”, ele repetiu.
Dessa vez, mais baixo.
Virei o envelope.
Patrícia se aproximou.
No topo da etiqueta havia o nome de uma clínica.
Logo abaixo, em letras pequenas, estava escrito:
Paciente: Camila Nogueira.
Fiquei alguns segundos olhando.
“Senhor Renato…”
“Me entrega.”
“Isso não está no seu nome.”
A mão dele parou no ar.
Patrícia olhou a etiqueta.
“Camila Nogueira”, ela leu.
A mudança no rosto de Renato foi imediata.
A irritação desapareceu.
Não virou vergonha.
Virou outra coisa.
Medo, talvez.
Ou surpresa.
“De onde você tirou isso?”, ele perguntou.
“Aqui embaixo da sua cadeira.”
“Não. Eu quero saber…”
Ele interrompeu a própria frase.
Os olhos dele foram até a entrada do restaurante.
Foi então que eu entendi.
“Camila era o nome daquela mulher que acabou de sair daqui?”
Renato olhou para mim.
Não respondeu.
Eu continuei:
“A mulher de bolsa clara. Ela estava aqui há uns cinco minutos.”
O rosto dele perdeu a cor.
Patrícia também percebeu.
“Senhor Renato, o senhor conhece essa pessoa?”
Ele ignorou a pergunta.
Deu um passo na minha direção.
Não parecia mais interessado em me acusar de roubo.
Nem sequer olhava para minha roupa, meus bolsos ou para a gerente.
O olhar estava preso no envelope transparente entre meus dedos.
“Você viu para onde ela foi?”
A pergunta saiu quase num sussurro.
Eu olhei para Patrícia.
Depois para Renato.
Era o mesmo homem que, menos de um minuto antes, queria que me revistassem na frente do restaurante inteiro.
Agora parecia ter esquecido completamente a cartela que dizia ser dele.
“Então o senhor conhece a Camila?”
Renato abriu a boca.
Nenhuma resposta saiu.
Apenas encarou o nome na etiqueta.
“Camila…”
E naquele instante ficou claro que o problema nunca tinha começado comigo.













