— Isabela, para quem você está levando a comida que eu mal consigo comprar?
Minha filha parou na porta da cozinha com duas marmitas nas mãos. A vermelha era a que levava para a escola. A azul estava cheia até a metade, mas reconheci ali o pedaço de frango que havia separado para meu almoço.
— Eu vou comer a minha, pai — disse ela, apertando a alça da mochila.
— Não perguntei isso. Perguntei para quem é a outra.
Isabela tinha doze anos. Naquele momento, porém, me olhou com uma seriedade que eu não esperava.
— Para uma pessoa que precisa.
Meu nome é Marcos, tenho quarenta e três anos e moro com minha filha em Fortaleza. Naquela semana, eu havia contado as moedas antes de entrar no mercado. Depois de pagar a conta de luz e reservar dinheiro para o gás, comprei arroz, feijão, ovos e dois filés pequenos de frango. Tudo precisava durar até sexta-feira.
Na noite anterior, deixei duas porções prontas: uma para o almoço de Isabela e outra para o meu. Quando ela saiu, abri a panela. Restava somente metade da minha. Não era um desperdício qualquer. Era a refeição que eu contava comer mais tarde.
Passei o dia dividido entre a irritação e a vergonha. Eu ensinara minha filha a ajudar os outros, mas também sabia quantas vezes já fingira estar sem fome para que ela repetisse o prato. Como explicar que a generosidade tinha limites sem ensinar uma menina a fechar os olhos para a necessidade alheia?
Na manhã seguinte, acordei antes dela. Pela fresta da porta, vi Isabela preparar sua marmita vermelha e, depois, retirar uma parte da comida que eu havia deixado para mim. Colocou arroz, feijão e um pedaço de ovo na marmita azul. Não levou tudo: deixou o restante coberto sobre o fogão.
— Outra vez? — perguntei.
Ela se assustou.
— Pai, eu não estou ficando sem almoço.
— Mas está diminuindo o meu.
Isabela abaixou a cabeça. Seus olhos ficaram úmidos.
— Eu sei. Desculpa. Só achei que o senhor não ia deixar.
Eu poderia ter exigido que guardasse a marmita naquele instante. Em vez disso, pedi que fosse para a escola e decidi descobrir o que estava acontecendo. Não foi minha melhor escolha segui-la sem avisar. Naquele momento, o medo falou mais alto.
A praça ficava no caminho da escola, à vista de quem passava pela rua. Isabela foi até um banco de concreto, debaixo de uma árvore, onde um senhor magro a esperava com uma sacola de pano sobre os joelhos.
Reconheci o rosto. Algumas semanas antes, uma sacola daquele homem rasgara perto da feira. Isabela e eu o ajudáramos a recolher laranjas espalhadas na calçada. Ele nos agradecera e dissera que se chamava Anselmo. Eu o vira outras vezes na praça, mas não sabia que minha filha tinha voltado a conversar com ele.
— Bom dia, seu Anselmo — ela disse. — Hoje tem ovo.
O idoso sorriu. Recebeu a marmita azul com as duas mãos e perguntou se ela já havia comido. Isabela apontou para a vermelha, guardada na mochila.
Aproximei-me antes que ele abrisse a comida.
— Isabela!
Ela se virou tão depressa que quase deixou cair a mochila.
— Pai?
— Você precisava ter me contado.
Minha voz saiu alta demais. Seu Anselmo se endireitou no banco.
— Aconteceu alguma coisa, senhor?
— A comida está saindo do meu almoço. Não posso fingir que temos sobrando.
Olhei para a marmita nas mãos dele.
— Desculpe, mas vou precisar levá-la de volta.
Estendi a mão. Isabela ficou entre nós, sem me empurrar.
— Pai, por favor. Escuta primeiro.
— Eu estou ouvindo. Só não posso alimentar todo mundo.
Seu Anselmo colocou a marmita sobre o banco.
— O senhor tem razão de se preocupar. Eu não sabia que ela tirava da sua parte.
Abriu a sacola e retirou um pote pequeno de tampa amarela, lavado, com uma fita adesiva onde se lia “Celina”. Ao lado havia uma colher embrulhada num pano. Não parecia algo improvisado naquela hora.
— Posso mostrar uma coisa antes de o senhor decidir? — perguntou.
Assenti, ainda desconfiado.
Ele abriu a marmita azul e passou metade do arroz, do feijão e do ovo para o pote amarelo. Fez isso devagar, para não derramar nada. Fechou a tampa e conferiu o encaixe com os dedos. Só então guardou a porção que sobrara para si.
Baixei a mão que havia estendido para recuperar a comida.
— Quem é Celina?
— Minha vizinha. Mora duas ruas daqui. Tem muita dificuldade para andar e, em alguns dias, não consegue sair para comprar comida.
— E essa porção é para ela?
Anselmo assentiu.
— Quando alguém me dá alguma coisa, separo um pouco. Ela sabe que passo lá depois. Não gosto de prometer almoço quando não tenho certeza de que vou conseguir.
Olhei para Isabela. Ela enxugava o rosto com as costas da mão.
— Eu vi seu Anselmo dividindo um pão com ela uma vez — contou. — Depois perguntei se podia trazer comida. Ele disse que eu precisava falar com o senhor. Eu tive medo de ouvir não.
Aquelas palavras doeram. Minha filha escondera a verdade, mas o homem que eu quase acusara de se aproveitar dela tentara fazê-la pedir minha autorização.
Aproximei-me de Isabela e me inclinei um pouco para encontrar seus olhos.
— Você não pode tirar comida da nossa mesa sem conversar comigo. Nem precisa resolver sozinha a fome de ninguém.
Ela assentiu. Então me voltei para Anselmo.
— O senhor consegue ir até a casa de dona Celina hoje?
— Hoje consigo. Mas nem sempre.
— E quando não consegue?
Ele olhou para o pote amarelo, que estava pronto para a viagem.
— Tem dia em que ela fica esperando até escurecer.
Eu tinha seguido minha filha para recuperar metade do meu almoço. Agora sabia que, antes de decidir o destino daquela marmita, precisava entender quem estaria esperando do outro lado daquela porta.













