Victoria Hale esperara anos para se tornar esposa de Ethan Pierce, mas uma menina encharcada de chuva estava prestes a destruir seus planos antes do fim dos votos.
— PAI! NÃO SE CASE COM ELA!
As portas da capela se chocaram contra as paredes, interrompendo a música e fazendo quase cem convidados se virarem ao mesmo tempo.
O som da chuva invadiu o salão, misturado ao cheiro das rosas brancas e à fumaça discreta das velas próximas ao altar.
Ethan estava diante do celebrante, segurando a mão de Victoria.
Aos quarenta e um anos, acreditava que finalmente encontrara alguma paz depois de uma juventude marcada por perdas que preferia não explicar.
Até aquele instante, seu maior medo era tropeçar nas palavras do compromisso.
A menina tinha uns onze anos.
Os cabelos castanhos estavam grudados nas bochechas, o moletom azul-claro tinha manchas escuras de chuva e os tênis molhados rangiam sobre o tapete vermelho.
Ela segurava um envelope bege, gasto nas pontas, tão apertado contra o peito que os dedos pareciam sem cor.
— PAI! NÃO SE CASE COM ELA! — repetiu, avançando pelo corredor.
Ethan soltou a mão da noiva.
Não reconhecia aquele rosto.
Ainda assim, alguma coisa no modo como a menina franzia a testa o fez descer um degrau do altar.
— Quem é você? — perguntou.
— Eu sou Lucy. Filha da Olivia.
O nome fez Ethan esquecer os convidados, o celebrante e até a mulher ao seu lado.
Olivia Bennett não era uma lembrança qualquer.
Fora a pessoa com quem ele imaginara envelhecer, antes de uma discussão que terminara em silêncio e de uma notícia de morte que nunca tivera coragem de questionar.
Victoria entrou no corredor com tanta pressa que o véu roçou o braço dele.
Ergueu o buquê entre os dois, como se pudesse impedir aquela conversa.
— A Olivia morreu há nove anos! — declarou, alto o bastante para todos ouvirem.
Lucy não recuou.
Apontou para a noiva com a mão trêmula.
— Mentira! Você pagou para minha mãe desaparecer!
Um murmúrio percorreu a capela.
Ethan olhou para Victoria, esperando que ela negasse de uma maneira que fizesse sentido.
Mas a expressão dela mudou antes que qualquer palavra saísse.
— Essa menina não sabe do que está falando — Victoria disse.
— Alguém precisa tirá-la daqui.
Lucy abriu o envelope sobre o primeiro banco, tentando não derramar seu conteúdo.
Tirou uma fotografia desbotada e uma pilha de cheques de bordas verdes.
— A mamãe guardou todos. Ela está morrendo hoje.
Ethan pegou primeiro a fotografia.
Nela, aparecia doze anos mais jovem, ao lado de Olivia, que estava grávida.
Reconheceu a blusa branca dela, o jardim da antiga casa onde tinham passado uma tarde de domingo e o sorriso que ainda conseguia lembrar mesmo depois de tanto tempo.
Na semana seguinte àquela foto, Olivia lhe dissera que o bebê não era dele.
Ele reagira com raiva, acreditara no que ouvira e deixara que ela partisse.
Agora havia uma criança diante dele, com a mesma cor de olhos de Olivia e uma coragem que parecia custar tudo o que tinha.
— Onde sua mãe está? — conseguiu perguntar.
— No hospital. Ela pediu que eu viesse antes de começar a cerimônia, mas o ônibus demorou e eu corri da parada até aqui.
Ethan virou o primeiro cheque.
No campo do beneficiário estava escrito Olivia Bennett.
Havia uma data antiga e um valor que ele não conseguiria esquecer.
Na assinatura, as letras avançavam inclinadas para a direita, com um traço longo no final.
Era o mesmo movimento de caneta que vira Victoria usar em contratos, cartões e no requerimento do casamento civil.
Ele examinou outro cheque.
Depois outro.
Em todos, a mesma assinatura: Victoria Hale.
O buquê caiu no chão.
Victoria avançou sobre os papéis.
— ME DÊ ISSO! — gritou.
Ethan segurou o pulso dela antes que tocasse o envelope.
Sem apertar além do necessário, afastou-lhe a mão e se colocou entre Victoria e Lucy.
A menina se encolheu atrás dele, mas não soltou a fotografia.
— Você vai me explicar por que assinou esses cheques — Ethan disse.
— Não aqui. Estão todos olhando.
— Foi você quem gritou que Olivia estava morta.
Victoria olhou para os bancos, procurando aliados entre os convidados.
Ninguém se levantou.
O celebrante fechou discretamente o livro que segurava.
— O casamento está suspenso — anunciou Ethan.
Victoria abriu a boca, mas ele já se abaixava para falar com Lucy na altura de seus olhos.
Perguntou o nome do hospital e se havia algum adulto acompanhando a mãe.
Lucy respondeu que Marta, uma vizinha, estava no quarto e que havia pedido aos médicos para aguardarem.
— Aguardarem o quê? — perguntou Ethan.
— Para contar a verdade a você. A mamãe disse que, se eu conseguisse chegar, você precisava saber antes de ser tarde.
Um telefone vibrou dentro do bolso do moletom molhado.
Lucy mostrou a tela: MARTA.
Ethan pediu licença, atendeu e ouviu uma voz feminina tentando não chorar.
— Senhor Pierce? Sou amiga da Olivia. Ela piorou agora há pouco. Se o senhor vier, venha direto para a unidade de cuidados intensivos.
Ao desligar, Ethan percebeu que continuava com a aliança destinada a Victoria no bolso do paletó.
Durante meses, tratara aquele pequeno círculo de metal como promessa de futuro.
De repente, tudo o que conseguia pensar era no tempo que talvez tivesse perdido com a própria filha.
Lucy puxou de leve a manga dele.
— Você vai mesmo comigo?
Ethan guardou os cheques dentro do envelope e estendeu a mão livre.
— Vou. E desta vez ninguém vai decidir por nós o que podemos saber.
Eles saíram sob a chuva, deixando Victoria diante das flores espalhadas.
Mas, no caminho até o carro, Lucy disse algo que fez Ethan parar junto à porta aberta.
— A mamãe falou que você também recebeu uma carta. Ela disse que, se você não chegou a ler, tem alguém mentindo desde o começo.
Havia, portanto, outra coisa a descobrir além dos cheques, e Ethan não sabia se Olivia ainda teria forças para explicá-la.
Para descobrir o que havia acontecido com a carta e por que Olivia continuara escondida, acompanhe a Parte 2.













