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Uma Desconhecida Trouxe Meu Caderno Amarelo à Livraria e Revelou um Segredo Que Minha Mãe Escondeu por Décadas

outubro 20, 2026
in AMIGA, FAMÍLIA
Reading Time: 19 mins read
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Uma Desconhecida Trouxe Meu Caderno Amarelo à Livraria e Revelou um Segredo Que Minha Mãe Escondeu por Décadas
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1. Parte 1 – O Caderno que Voltou

  • 1. Parte 1 – O Caderno que Voltou
  • 2. Parte 2 – As Duas Versões de Uma Carta
  • 3. Parte 3 – A Viagem que Ninguém Explicou
  • 4. Parte 4 – O Nome no Fim da Resposta
  • 5. Parte 5 – Uma Porta Sem Condições

— Você reconhece este caderno?

A jovem colocou um caderno amarelo sobre o balcão da minha livraria, entre uma pilha de romances usados e a máquina de cartão.

A capa estava desbotada e a lombada, presa com fita adesiva.

No canto superior havia uma andorinha desenhada com canetinha roxa.

Uma das asas era curta demais.

Parei de organizar os livros.

— Onde você encontrou isso?

Ela manteve a mão sobre a capa.

— Primeiro me diga se reconhece.

Meu nome é Sofia Moreira, tenho quarenta e dois anos e há onze cuido de uma pequena livraria de usados no centro de Curitiba.

Às vezes, os clientes aparecem com caixas de fotografias, livros escolares e objetos que passaram décadas esquecidos em armários.

Eu já tinha aprendido a respeitar o valor que uma lembrança pode ter para alguém.

Mas aquele caderno não pertencia à memória de um desconhecido.

Pertencia à minha.

Abri a primeira página.

Em letras tortas, estava escrito: “Sofia Moreira — 3º ano”.

Abaixo do meu nome, três pontinhos formavam um pequeno triângulo.

Eu os fazia porque achava que minha assinatura parecia séria demais.

Encostei a ponta do dedo no papel áspero.

— Essa letra é minha.

A mulher soltou o ar devagar.

Parecia ter pouco mais de trinta anos, mas o nervosismo lhe dava a expressão assustada de alguém muito mais jovem.

Usava casaco cinza e segurava uma bolsa de tecido junto ao corpo.

Os cabelos castanhos ainda estavam úmidos da chuva.

— Eu sou Noemi Valente. Vim de Ponta Grossa.

— Você conhece minha família?

Noemi não respondeu.

Olhou para um marcador de páginas ao lado do caixa.

Eu havia desenhado nele a mesma andorinha roxa, com a asa direita menor.

Costumo distribuir esses marcadores às crianças que participam das minhas rodas de leitura.

— Você ainda desenha assim — ela murmurou.

Guardei o marcador atrás do balcão.

Não gostei daquela intimidade inesperada.

Era como se uma estranha conhecesse uma parte de mim que eu quase nunca mostrava.

— Se veio vender o caderno, eu não compro materiais escolares — avisei. — Mas posso confirmar que ele era meu.

— Não quero vender nada.

Ela puxou uma cadeira e depois a empurrou de volta, sem se sentar.

Os dedos tremiam.

Lá fora, um ônibus freou na rua molhada.

No fundo da loja, uma cliente examinava a contracapa de um romance policial.

Esperei que pagasse e saísse antes de virar a plaquinha da porta para “Volto em dez minutos”.

— Agora pode me explicar.

Noemi baixou os olhos.

— Recebi esse caderno há duas semanas. Quem guardou disse que ele veio de Joana Moreira.

Senti o corpo enrijecer.

Joana era minha mãe.

Ela havia morrido quatro anos antes, depois de uma doença longa.

Mesmo quando já estava fraca, ainda insistia em etiquetar pastas e dobrar cuidadosamente os papéis.

Fui eu quem organizou suas gavetas depois do enterro.

Nunca vi aquele caderno.

— Quem entregou a você?

— Eu vou contar. Mas, se você me mandar embora agora, talvez eu não consiga voltar.

Não havia ameaça na voz dela.

Havia medo.

A impressão era de que tinha ensaiado aquela conversa durante toda a viagem e, diante de mim, esquecido como começá-la.

— Sua mãe nunca falou de mim? — perguntou.

— Eu nem sei quem você é.

Noemi abaixou a cabeça.

A forma como recebeu minha resposta me fez sentir cruel, embora eu só tivesse dito a verdade.

— Desculpa. Não quis machucar você.

— Não. Eu precisava ouvir isso.

Ela abriu o caderno com cuidado.

As primeiras folhas tinham contas de multiplicação, exercícios de português, correções em vermelho e desenhos de casas com chaminés.

Reconheci a letra da professora e uma mancha azul que eu mesma tinha feito com a caneta.

Por um instante, quase pude sentir o cheiro da mochila que levava à escola.

Noemi passou as páginas até chegar ao final.

Ali havia uma folha dobrada em quatro.

A caligrafia não era infantil.

As letras eram finas e inclinadas para a esquerda.

Meu estômago se contraiu antes mesmo de eu ler qualquer coisa.

Minha mãe escrevia daquele jeito nos rótulos dos potes de geleia e nos bilhetes que colocava nos pacotes enviados quando eu estudava fora.

Noemi desdobrou o papel e o colocou diante de mim.

— Por favor, leia.

Abaixo de uma data antiga, havia uma única frase:

“Às minhas duas filhas, Sofia e Noemi. Um dia vocês precisarão saber a verdade.”

Li uma vez.

Depois outra.

A livraria pareceu ficar silenciosa de repente, embora eu ainda ouvisse a chuva bater no vidro.

Durante quarenta e dois anos, acreditei que era filha única.

— Isso não pode ser verdade.

Noemi desviou o olhar.

— Disseram que você sabia de mim. Disseram que, quando tentei escrever, você não quis me conhecer.

Levantei a cabeça.

— Você me escreveu?

— Quando fiz dezoito anos.

Nunca recebi carta alguma.

Eu não tinha recusado encontro nenhum.

E a mulher diante de mim havia passado anos acreditando que eu a rejeitara.

— Noemi… eu nunca soube que você existia.

Ela apertou a capa amarela com as duas mãos.

Ficamos nos olhando, sem coragem de nos aproximar.

Naquele balcão, duas versões da mesma família acabavam de se encontrar.

E alguém, durante muito tempo, tinha feito de tudo para mantê-las separadas.

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1. Parte 1 – O Caderno que Voltou

  • 1. Parte 1 – O Caderno que Voltou
  • 2. Parte 2 – As Duas Versões de Uma Carta
  • 3. Parte 3 – A Viagem que Ninguém Explicou
  • 4. Parte 4 – O Nome no Fim da Resposta
  • 5. Parte 5 – Uma Porta Sem Condições
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