A pergunta de Diego ficou suspensa entre os quatro, mas ninguém pareceu aliviado por finalmente ouvi-la.
Valentina olhou primeiro para ele, depois para a mãe, como se procurasse saber qual resposta era permitida.
Helena desceu dois degraus depressa.
“Você está passando dos limites, Diego.”
“Minha pergunta foi para a Lívia.”
“E a menina está ouvindo tudo!”
Diego se voltou para Valentina e se agachou, mantendo a distância que ela própria escolhera.
Por um instante, o botão dourado continuou entre seus dedos, parecendo uma resposta que ele ainda não tinha.
“Desculpa. Eu devia ter perguntado de outro jeito.”
“O senhor é o homem da fotografia?”, Valentina perguntou.
“Depende da fotografia.”
“Está chovendo e você segura um casaco em cima da cabeça da minha mãe.”
Diego respirou fundo.
Lembrava-se daquela tarde, da chuva repentina e de Lívia rindo porque os dois haviam corrido inutilmente até a marquise de uma farmácia.
Usara um casaco antigo, herdado do avô, que tinha botões feitos sob encomenda com o desenho de uma árvore.
Depois daquela tarde, deixara o casaco com Lívia.
“Sou eu”, respondeu.
A menina pareceu considerar a informação, mas não fez outra pergunta.
Helena cruzou os braços.
“Uma foto também pode ser usada para inventar uma história.”
“Chega”, Diego disse.
Ele abriu a mão e devolveu o botão a Valentina.
Não era um presente e muito menos uma prova de parentesco.
Era apenas uma peça que pertencia à menina e que ninguém tinha o direito de confiscar.
“Não vou discutir sua vida na frente da minha filha”, Lívia disse à mãe dele.
Foi a primeira vez que pronunciou aquela relação sem recuar.
Diego percebeu que ela não havia dito aquilo para convencê-lo, mas para proteger Valentina.
Ofereceu a sala de estar, e Lívia recusou.
Ainda podia sentir a pressão do olhar de Helena em suas costas.
“Tem uma padaria na esquina”, sugeriu Diego.
“Podemos conversar lá. Se você concordar.”
Lívia perguntou à filha se queria acompanhá-los.
Valentina assentiu depois que a mãe explicou que poderia interromper a conversa quando desejasse.
Diego pediu ao porteiro que abrisse o portão e saiu com elas, sem responder ao chamado de Helena.
Na padaria, Valentina escolheu um pão de queijo e ficou desenhando no verso de um guardanapo.
Diego se sentou diante de Lívia, que mantinha uma pequena pasta sobre os joelhos.
Não havia mesa comprida, lustre nem escada separando os dois.
Mesmo assim, a distância parecia imensa.
“Quando você foi embora, eu estava tentando encontrar um jeito de contar”, ela começou.
“Eu tinha acabado de descobrir a gravidez.”
“Por que não ligou para mim?”
“Liguei. O número que eu tinha deixou de funcionar quando você estava em Lisboa.”
Diego se lembrou de ter trocado o telefone depois de perdê-lo durante uma viagem.
Avisara parentes e amigos próximos, mas não procurara Lívia diretamente.
Na época, acreditava que ela já havia decidido terminar.
“Minha mãe disse que você não queria mais me ver”, ele explicou.
“E a sua mãe me disse a mesma coisa sobre você.”
Lívia contou que voltara à mansão duas semanas depois de descobrir a gravidez.
Helena a recebera sozinha, fechara a porta do escritório e ouvira a notícia sem mudar de expressão.
Em seguida, dissera que Diego tinha novos planos e que uma criança não poderia ser usada para prendê-lo.
Oferecera dinheiro para que Lívia se estabelecesse em outra cidade.
“Eu não aceitei”, Lívia disse.
“Queria que ele ouvisse de mim.”
“Ela falou que eu sabia da gravidez?”
“Falou que você preferia não se envolver.”
Diego baixou os olhos.
A lembrança da própria mãe, sempre tão segura ao explicar o comportamento dos outros, tornou-se difícil de suportar.
Mas aquela descoberta não apagava sua responsabilidade.
Havia acreditado nela porque era mais fácil acreditar.
“Eu mandei mensagens para seu número antigo”, ele contou.
“Não recebi resposta e parei. Devia ter ido procurar você.”
“Devia”, Lívia respondeu, sem aumentar a voz.
A palavra ficou entre eles, sem desculpas para suavizá-la.
Lívia contou como mudara de bairro depois do nascimento, trabalhando em consertos de roupa e cuidando da filha com a ajuda de uma vizinha.
Durante anos, temera que qualquer aproximação com a família Azevedo transformasse Valentina numa disputa.
Também sabia que o medo não explicava tudo.
“Eu podia ter tentado outra vez, mais cedo”, admitiu.
“Mas cada vez que pensava em voltar, lembrava como sua mãe me olhou quando falei do bebê.”
Diego observou Valentina desenhar duas janelas e uma porta pequena.
Ela parecia concentrada, embora não tivesse parado de ouvir.
“Não preciso que me chamem de pai hoje”, ele disse à menina.
“Quero descobrir a verdade sem machucar você.”
“Eu já tenho uma mãe”, ela respondeu.
“Não quero que ninguém faça ela chorar.”
“Nem eu.”
Lívia abriu a pasta.
Mostrou uma fotografia antiga, tirada poucos meses antes da separação, e uma folha dobrada com marcas de tantas vezes ter sido manuseada.
Era a cópia de uma carta em que explicava a gravidez e pedia uma conversa, não dinheiro.
No canto, havia uma data escrita por ela.
“Enviei pelo correio com aviso de recebimento”, disse.
“Guardei uma cópia porque tinha medo de ser acusada de mentir.”
Debaixo da folha estava o cartão devolvido pelos Correios, amarelado nas bordas.
Ele trazia a identificação do endereço da mansão e a assinatura de quem recebera a correspondência.
Diego pediu licença antes de pegá-lo.
“Posso fotografar? Vou precisar perguntar a ela sobre isso.”
Lívia concordou.
Disse que só voltaria a tratar do assunto se Helena não estivesse presente e que qualquer exame deveria ser combinado com calma, sem transformar Valentina numa suspeita.
Diego aceitou.
Anotou o telefone atualizado de Lívia no próprio celular, repetindo os números para não errar.
Quando as duas se levantaram, Valentina entregou a ele o desenho feito no guardanapo.
Havia uma porta aberta na casa que desenhara.
“Eu não sei se essa casa existe”, ela comentou.
“Nem eu”, Diego respondeu.
Ele as acompanhou até a calçada e esperou que entrassem no ônibus antes de voltar.
Só então abriu no celular a fotografia do aviso de recebimento e ampliou o nome escrito no campo da assinatura.
Não era a assinatura de um funcionário da portaria.
Era a de Helena Azevedo.
Para descobrir por que Helena recebera a carta e nunca a entregara, continue na Parte 3.













