Júlio negou ter ordenado a destruição de qualquer prova.
Falou alto o bastante para que os convidados próximos escutassem.
— É um procedimento de privacidade.
As gravações de eventos são apagadas quando deixam de ser necessárias.
Helena não discutiu a explicação.
Pediu ao técnico que anotasse o horário da mensagem e preservasse uma cópia conforme as regras de sua empresa.
A ordem havia sido enviada antes da queda, o que enfraquecia minha primeira suspeita.
Ainda assim, ninguém sabia por que a fundação insistia em eliminar os registros tão depressa.
— Então não foi por causa de mim — observei.
— Isso não torna o procedimento correto — respondeu Beatriz.
— Precisamos verificar se houve outras reclamações e se os arquivos foram destruídos depois delas.
O jardim começou a esvaziar.
Alguns convidados passaram por mim sem olhar para o curativo.
Outros me perguntaram, em voz baixa, se podiam contribuir para a apuração.
Pedi apenas que relatassem o que tinham visto, sem editar vídeos nem repetir versões de terceiros.
Vanessa tentou sair por uma porta lateral.
Não a impedi.
Uma investigação séria não precisava de alguém encurralado entre seguranças.
Antes de partir, porém, ela voltou na direção de Olívia.
— Se você disser alguma mentira sobre mim, vai se arrepender.
Olívia recuou.
Daniel ouviu a frase e anotou as palavras exatas, perguntando depois se ela desejava incluí-las no relato.
Ela aceitou.
Fui ao hospital naquela mesma noite.
O médico retirou um pequeno fragmento de vidro, limpou o ferimento e recomendou repouso e acompanhamento.
A dor aumentou quando a adrenalina passou.
Só então percebi que minhas mãos ainda tremiam.
Daniel permaneceu comigo na sala de espera.
— Você podia ter revelado quem era antes de se machucar — disse ele.
— Eu podia ter impedido várias coisas antes disso.
Ele não tentou me consolar.
Conhecia meu trabalho o bastante para saber que eu não queria desculpas fáceis.
Na manhã seguinte, convoquei uma reunião extraordinária do conselho do Instituto Ponte Aberta.
Expliquei minha participação como funcionária temporária, mostrei o contrato de um turno firmado com a empresa de eventos e relatei minha queda.
Também declarei meu envolvimento pessoal no incidente, para que a apuração não dependesse da minha palavra.
Beatriz recebeu autonomia para verificar as contas do convênio.
Helena ficou responsável por organizar depoimentos e apresentar pedidos formais de conservação de documentos.
Duas conselheiras assumiram a comunicação com a fundação.
Eu permaneceria disponível como testemunha, mas não decidiria sozinha nenhuma medida contra os Viana.
O conselho da fundação marcou uma reunião três dias depois.
Até lá, os repasses ainda não comprometidos pelo instituto seriam temporariamente retidos, conforme a cláusula de auditoria, sem suspender os pagamentos já destinados aos projetos sociais.
A decisão exigiu uma planilha cuidadosa.
Não aceitaríamos proteger trabalhadores de eventos à custa de abandonar as famílias atendidas pelos programas.
Meena chegou ao escritório de Helena naquela tarde.
Trouxe os recibos de pagamento, as mensagens do supervisor e uma cópia do contrato.
Segundo ela, os descontos apareciam como faltas injustificadas, embora tivesse cumprido a escala.
Luís entregou registros de jornadas que ultrapassavam o período contratado.
Olívia trouxe a mensagem em que um gerente sugeria que ela esquecesse a acusação da pulseira.
Cada um contou sua história separadamente.
Nenhum recebeu promessa de indenização imediata.
Helena explicou as possibilidades de reclamação trabalhista e de responsabilização, bem como os riscos de exposição.
Dizer a verdade não eliminava o medo de perder o próximo serviço.
Foi Cecília quem apareceu sem aviso.
Estava sem maquiagem, segurando o celular com as duas mãos.
— Eu ri daquela menina — disse, referindo-se a Olívia.
— E da Meena.
Eu sei o que fiz.
Esperei.
— A Vanessa pediu para eu confirmar que você tinha tropeçado sozinha.
Depois que saímos, mandou várias mensagens.
Eu não respondi.
Ela abriu a conversa, mas Helena a interrompeu.
— Você pode nos encaminhar os registros voluntariamente, preservando a conversa original.
Não precisa deixar seu telefone aqui.
Cecília concordou.
Disse que Vanessa insistira em apresentar a queda como uma encenação paga pelo meu instituto.
Uma das mensagens mencionava o contato de um assessor de imprensa disposto a divulgar a versão.
— Por que está nos mostrando isso? — perguntei.
— Porque eu vi o pé dela.
E porque eu ouvi você pedir ajuda sem levantar a voz.
A resposta não apagava o que Cecília fizera.
Mas era a primeira vez que alguém daquela roda aceitava assumir a própria participação.
Na reunião com a fundação, Júlio apareceu acompanhado de um advogado e de Henrique.
Este entrou com uma pasta contendo relatórios de incidentes classificados como desentendimentos sem gravidade.
Beatriz pediu os originais, os protocolos recebidos e a identificação de quem havia encerrado cada caso.
Henrique se irritou.
— Vocês estão transformando reclamações de serviço em um escândalo institucional.
— Não — Beatriz respondeu.
— Estamos tentando entender por que quase todas as reclamações terminam sem ouvir quem reclamou.
Júlio confirmou que aprovara uma política de eliminação rápida de vídeos, alegando preocupação com a imagem dos participantes.
Admitiu, porém, que jamais verificara se existia um procedimento alternativo para preservar registros quando havia denúncia.
A frase dele ficou na ata.
Foi uma funcionária do setor financeiro que abriu uma nova frente de investigação.
Chamava-se Patrícia e pedira para conversar longe de Henrique.
Apresentou cópias de relatórios que ela própria preparara para o conselho.
Havia uma rubrica mensal chamada capacitação e acolhimento da equipe de eventos.
Os valores aumentavam sempre que surgiam reclamações trabalhistas.
— Eu solicitei a lista dos cursos — explicou.
— Recebi apenas notas fiscais.
Quando insisti, disseram que era uma despesa estratégica e que eu não deveria continuar perguntando.
Beatriz cruzou as datas das notas com as planilhas entregues por Meena.
Nos dias de dois supostos treinamentos, vários empregados apontados como participantes trabalhavam em outros locais.
Um terceiro encontro constava num espaço que estava fechado para reforma.
Patrícia pousou mais um documento sobre a mesa.
Era o contrato da empresa que emitia as notas.
Na ficha cadastral havia uma informação que Henrique não tinha mencionado a ninguém naquela manhã.
A sócia responsável era sua irmã.
Eu olhei para as assinaturas e entendi que agora a pergunta não era apenas quem havia permitido as humilhações.
Precisávamos descobrir se o dinheiro reservado para proteger trabalhadores tinha sido usado para beneficiar a própria direção.
Para descobrir o que havia por trás daqueles pagamentos, continue com a Parte 4.













