O primeiro carro parou antes da escadaria.
Henrique se aproximou o suficiente para que só eu ouvisse sua voz.
— A senhora é a Mara Azevedo que assinou o convênio com a fundação?
Não respondi imediatamente.
Minha atenção estava no sangue que continuava descendo pela canela.
A pergunta dele explicava o medo: conhecia minha assinatura, mas nunca tinha me visto pessoalmente.
Daniel saiu do primeiro veículo carregando uma pasta fina.
Atrás dele vieram Beatriz Nogueira, auditora independente, e a advogada Helena Duarte.
Do segundo carro desceram duas integrantes do conselho do Instituto Ponte Aberta, que eu presidia, e um especialista em segurança do trabalho.
O terceiro trazia uma equipe de apoio e uma médica de plantão, contratada para acompanhar a visita.
Não havia policiais, ordens de prisão nem homens armados.
Eu não queria um espetáculo de vingança.
Queria pessoas capazes de registrar o que aconteceria depois que os convidados parassem de olhar.
Daniel me viu junto à fonte e perdeu a compostura por um instante.
— Mara, você está ferida.
— Primeiro, afaste os cacos de vidro.
Há funcionários circulando por aqui.
A médica se ajoelhou para examinar meu joelho, depois me conduziu a uma cadeira.
Helena pediu que ninguém mexesse nos objetos espalhados até que fossem fotografados, se os responsáveis pelo local concordassem.
Vanessa cruzou os braços.
— Que palhaçada é essa?
Beatriz apresentou seu documento profissional e se dirigiu a Henrique.
— O Instituto Ponte Aberta financia parte dos programas desta fundação.
Nosso convênio prevê auditoria em caso de denúncias de violação das condições de trabalho.
Estamos aqui para notificar a abertura formal de uma apuração.
Júlio se aproximou com o mesmo sorriso que usara no palco.
— Podemos conversar em particular, naturalmente.
— Podemos — respondi.
— Mas antes alguém precisa atender a funcionária que você viu sangrando e decidiu ignorar.
Ele olhou para o curativo que a médica começava a fazer.
Não encontrou palavras.
Foi a primeira vez naquela noite que a expressão de Vanessa mudou de deboche para dúvida.
— Você é dona da fundação?
— Não.
E é importante que isso fique claro.
Sou responsável por um instituto que repassa recursos mediante condições escritas.
Não mando nos funcionários daqui e não posso demitir ninguém por vontade própria.
Mas posso exigir que o conselho responda pelo dinheiro e pelo tratamento dado às pessoas.
Uma mulher da equipe de limpeza se aproximou com um pano para secar o chão.
Era Rosa, uma das trabalhadoras que me haviam enviado um relato duas semanas antes.
— Deixa isso por enquanto — pedi.
— Tem vidro na água.
Ela olhou para Henrique, esperando autorização.
Aquele pequeno movimento dizia mais sobre a rotina do lugar do que qualquer discurso.
Henrique assentiu, contrariado.
Fiz Daniel chamar Olívia, Luís e Meena, sem exigir que falassem diante dos convidados.
Eles poderiam escolher se queriam prestar depoimento, a quem, e com que proteção.
Eu sabia que o simples fato de terem sido vistos perto de mim já poderia custar seus próximos contratos.
Vanessa apontou o celular na minha direção.
— Vou mostrar para todo mundo como uma milionária fingiu ser empregada para humilhar os convidados.
— Você pode contar a sua versão — respondi.
— Também pode explicar por que esticou o pé na minha frente.
— Não fiz isso!
Cecília baixou os olhos.
Ela tinha visto a queda de perto e parecia desejar estar em qualquer outro lugar.
Helena me pediu um minuto longe de todos.
— Mara, ser financiadora não lhe dá acesso automático às imagens da festa.
Precisamos preservar os pedidos formalmente.
E você precisa registrar o ferimento, por sua própria segurança.
Concordei.
Eu havia passado seis semanas aprendendo como a direção transformava reclamações em boatos.
Não permitiria que minha denúncia fosse descartada por falta de procedimento.
A equipe médica fez um curativo provisório e recomendou avaliação hospitalar naquela mesma noite, porque o corte poderia conter fragmentos.
Daniel se ofereceu para me levar.
— Depois que eu falar com a equipe — respondi.
Não falei com todos ao mesmo tempo.
Meena veio primeiro, com a postura cuidadosa de quem já tinha sido advertida por reclamar.
— A empresa terceirizada descontou dois dias meus depois que relatei o que Cecília disse — contou.
— Disseram que eu tinha prejudicado a imagem do evento.
— Você tem comprovantes?
— Tenho os recibos e a mensagem do supervisor.
Pedi que guardasse os originais e os entregasse apenas a quem ela autorizasse.
Depois conversei com Luís.
Ele não queria aparecer em gravações porque os filhos estudavam perto da casa de um dos administradores.
Aceitei sua condição sem discutir.
Antes de chamarmos Olívia, Beatriz abriu o convênio sobre uma mesa lateral.
Mostrou a cláusula que obrigava a fundação a manter um canal de denúncias independente.
Nas seis semanas anteriores, dezessete trabalhadores haviam procurado nosso instituto porque o canal interno não respondia.
Onze relataram ter sido convidados a retirar suas queixas.
Os outros seis disseram que nunca receberam um protocolo.
— Esses números ainda precisam ser confirmados — Beatriz me lembrou.
Eu concordei.
Relatos não eram sentenças, e justamente por isso precisávamos ouvir também a direção e a empresa terceirizada.
As pessoas reunidas no jardim, porém, começavam a perceber que o assunto não era uma bandeja de champanhe.
Uma pequena roda de convidados se afastou de Vanessa.
Outros continuaram filmando, como se a minha dor fosse apenas a próxima atração da festa.
Pedi a Daniel que não tentasse tomar os aparelhos de ninguém.
Olívia foi a última.
O rosto dela ainda estava vermelho.
— Mandaram eu abrir minha mochila por causa daquela pulseira — disse.
— Na frente de todo mundo.
Quando apareceu na bolsa da Vanessa, fingiram que não tinha acontecido.
— Sinto muito por não ter me aproximado de você naquela hora.
Ela me encarou.
— Você viu?
— Vi.
E escolhi continuar observando.
Achei que precisava de mais provas.
Foi uma escolha minha, e você não tinha obrigação de pagar por ela.
Olívia demorou a responder.
— Eu só queria trabalhar sem ter medo.
Aquelas palavras me acompanharam quando Helena voltou com uma informação.
A equipe de filmagem do evento havia registrado a fonte em uma câmera fixa destinada à transmissão no telão.
O responsável técnico confirmara que o arquivo original ainda estava armazenado, mas recebera uma solicitação para apagá-lo depois da festa.
— De quem? — perguntei.
Helena consultou a mensagem que o técnico havia mostrado voluntariamente.
— A ordem veio do gabinete da presidência.
Foi enviada por uma conta autorizada em nome de Júlio Viana.
Olhei para o homem que minutos antes falara de dignidade humana.
Se ele tentara destruir a gravação, então o silêncio daquela noite talvez tivesse sido organizado antes mesmo da minha queda.
Para saber por que a presidência queria eliminar as imagens, continue com a Parte 3.













