Derek acompanhou as malas com os olhos até que uma delas desapareceu na curva da escada. Então segurou o braço de meu pai.
“O senhor não pode simplesmente me colocar para fora. Eu moro aqui.”
Alessandro olhou para a mão dele, e Derek a retirou.
“Ninguém está usando força contra você. Seus pertences estão sendo levados para a entrada. Quem vai decidir o que acontece nesta casa é Bianca.”
A expressão de meu marido mudou. Pela primeira vez naquela manhã, ele olhou diretamente para mim, como se finalmente tivesse entendido que eu estava ali.
“Bianca, não vamos fazer uma cena na frente do Milo.”
A frase teria sido quase engraçada se meu filho não estivesse apertando o tubarão contra o peito, com a marca vermelha de cinco dedos começando a aparecer em sua bochecha.
“A cena começou quando vocês tiraram os desenhos dele da parede”, respondi. “E piorou quando sua mãe bateu nele.”
Regina soltou um suspiro indignado.
“Foi uma correção. Não faça disso uma tragédia.”
“Não encoste mais no meu filho.”
Minha própria voz me surpreendeu. Não saiu alta. Saiu firme, de um lugar que eu havia passado anos evitando visitar.
Derek abriu a boca, mas meu pai apontou para Milo.
“Antes de discutir onde alguém vai dormir, esse menino precisa ser examinado.”
Pedi à nossa funcionária, Lúcia, que trouxesse uma bolsa com água e os documentos de Milo. Ela tinha ouvido parte da confusão da cozinha, mas não fez perguntas. Apenas se aproximou dele e perguntou se queria levar seus carrinhos para o carro. Milo respondeu que só queria o tubarão.
Eu conhecia aquela resposta. Quando ficava assustado, meu filho diminuía o mundo até caber em um único objeto que pudesse segurar.
Derek tentou se ajoelhar diante dele.
“Filhão, você sabe que eu te amo.”
Milo se escondeu atrás de mim.
“Por que você guardou minha cama?”
Meu marido ficou sem resposta. A cama ainda estava no quarto, mas o colchão havia sido enrolado e encostado na parede. Para uma criança de seis anos, a diferença entre guardar a cama e tirar sua vida inteira de lugar não era tão grande.
“Eu ia arrumar outro quarto para você”, Derek disse enfim.
“Mas eu não pedi outro.”
Naquele instante, eu soube que qualquer conversa sobre minha relação com Derek poderia esperar. Aquela pergunta não.
Levei Milo até o carro de meu pai. Alessandro pediu ao motorista que nos conduzisse à clínica pediátrica onde meu filho já era atendido. Antes de entrar, voltei ao corredor. Derek e Regina estavam perto da escada, falando baixo.
“Vou levar Milo ao médico. Depois conversamos sem a presença dele. Você pode ficar em outro lugar hoje.”
“A casa também é minha”, Derek rebateu.
“Não é”, respondi.
O imóvel tinha sido comprado por meus pais muito antes do nosso casamento e transferido para mim por doação registrada. Derek sabia disso. Tinha participado da reforma, escolhido luminárias e chamado aquele endereço de nosso lar. Eu nunca o fizera se sentir um visitante. Mas participar da vida de uma casa não dava a ninguém o direito de transformar o quarto de uma criança em moeda de troca.
“Não vou discutir direitos de moradia no meio desta confusão”, acrescentei. “Procure orientação se achar necessário. Agora estou pedindo que você saia por hoje.”
Ele olhou para as malas na entrada. Após alguns segundos, pegou a chave do carro.
“Vou para a casa da minha mãe. Mas você está exagerando.”
Foi embora sem perguntar qual pediatra veria Milo.
Na clínica, uma médica examinou a vermelhidão, verificou se havia dor, registrou o que eu e Milo relatamos e orientou que observássemos qualquer sintoma fora do habitual. Não havia ferimento grave. Mesmo assim, quando ela perguntou como ele se sentia, meu filho respondeu algo que me atingiu mais do que o exame inteiro.
“Eu fui ruim porque não quis emprestar meu quarto?”
A médica esperou que eu falasse.
“Você não fez nada de errado”, expliquei. “Seu quarto é seu lugar, e ninguém tinha o direito de bater em você.”
“E o outro menino?”
“Ele também não fez nada de errado. Os adultos é que precisam resolver isso.”
Milo pensou por um momento e perguntou se podia continuar chamando Derek de papai. Abracei-o com tanto cuidado quanto pude.
“Pode, meu amor. Seu pai continua sendo seu pai.”
À tarde, enquanto Milo descansava na casa de Alessandro, voltei para recolocar os desenhos na parede. Alguns estavam rasgados nas bordas. Um deles mostrava três pessoas de mãos dadas diante de uma casa amarela. Reconheci meu vestido vermelho, a camisa de Derek e o tubarão azul flutuando sobre nossas cabeças como uma nuvem.
Sentei-me na beira da cama ainda desmontada e chorei pela primeira vez naquele dia. Não apenas pela descoberta de outra criança, mas pela facilidade com que Derek havia aceitado apagar os sinais da presença de Milo.
Meu pai apareceu à porta.
“Posso entrar?”
Assenti. Ele recolheu duas folhas caídas.
“Eu me precipitei com as malas”, admitiu. “Quando vi o rosto dele, só pensei em proteger vocês. Não quero decidir sua vida por você.”
“Você não decidiu. Só interrompeu uma coisa que eu nem sabia que estava acontecendo.”
“O restante precisa ser sua escolha.”
Concordei. Liguei para uma advogada de família indicada por uma amiga e marquei uma consulta. Depois mandei uma mensagem a Derek exigindo três informações: o nome e a idade de seu filho, a situação da mãe da criança e o motivo da urgência. Não discuti traição. Ainda não.
A resposta demorou quase uma hora.
O menino se chamava Lucas. Tinha quatro anos. Sua mãe, Camila, havia passado por uma cirurgia de emergência e não poderia cuidar dele durante alguns dias. Derek disse que tentara encontrar uma solução rápida, mas não explicou por que essa solução envolvia arrancar Milo de seu quarto.
Pouco depois, chegou outra mensagem, desta vez de um número desconhecido.
“Bianca, meu nome é Camila. Sou a mãe do Lucas. Preciso falar com você antes que mais alguém decida alguma coisa em nome do meu filho.”
Olhei para a tela, com a estranha sensação de que a mulher que eu mais temia encontrar talvez fosse a única pessoa capaz de explicar o que Derek não dizia.













