Passei quase uma hora olhando para aqueles lançamentos.
O primeiro era de junho; o segundo, de agosto.
Em ambos, Rafael havia autorizado a transferência pela conta conjunta, à qual nós dois tínhamos acesso.
Não existia ali um crime evidente que eu pudesse apontar com o dedo.
Existia uma decisão importante tomada pelas minhas costas, usando dinheiro que tínhamos juntado durante anos.
Eu me lembrava perfeitamente da última conversa sobre a reforma: tínhamos concordado em esperar mais alguns meses para trocar a parte elétrica e consertar a infiltração do quarto.
Lívia preparou café enquanto eu salvava os comprovantes.
— Você vai falar com ele hoje? — perguntou.
— Vou.
Mas primeiro quero entender o que está nos documentos.
Ela me indicou uma advogada que havia ajudado sua família numa separação.
Consegui uma consulta para o fim daquela semana.
Por telefone, a profissional orientou que eu guardasse extratos e mensagens, evitasse assinar qualquer acordo às pressas e não confundisse indignação com prova de tudo o que pudesse ter acontecido.
Anotei as três recomendações.
Era a primeira vez, desde a festa, que alguém me oferecia um caminho que não dependia de gritar mais alto.
Enviei a Rafael uma fotografia dos dois lançamentos, sem incluir mais ninguém na conversa.
— Quero saber por que esses valores foram para Bianca — escrevi.
Ele demorou quarenta minutos para responder.
— Foi um empréstimo para o estúdio dela.
Eu ia te explicar.
— Quando?
— Quando ela começasse a pagar.
Fiquei olhando para a tela.
Rafael tinha dado uma justificativa para o dinheiro, mas não para ter escondido a decisão.
Marquei de encontrá-lo numa cafeteria perto do meu trabalho, num horário movimentado.
Ele chegou com olheiras e uma expressão que eu conhecia das discussões em que desejava ser perdoado sem admitir exatamente o que fizera.
— Você está deixando todo mundo contra mim — disse antes mesmo de se sentar.
— Não convidei ninguém para essa conversa.
— Minha mãe ligou chorando.
— A sua mãe também recebeu os prints que você mostrou na festa?
Ele desviou o olhar para a xícara.
— Eu recebi aquilo e fiquei desesperado.
— De quem recebeu?
— Não vou expor essa pessoa.
— Você expôs a sua esposa diante de parentes e amigos.
Rafael esfregou as mãos.
— Bianca precisava de ajuda para manter o estúdio aberto.
O aluguel atrasou, apareceram despesas com equipamentos, e eu podia resolver.
— Com dinheiro nosso.
— A conta está no nome dos dois.
— É verdade.
E justamente por isso você sabia que precisava conversar comigo.
Pela primeira vez, ele não me interrompeu.
Perguntei se havia um contrato de empréstimo, mensagens sobre parcelas ou qualquer documento mostrando as condições da operação.
Rafael respondeu que tudo tinha sido combinado verbalmente.
— Então me envie por escrito quanto ela deve e quando pretende devolver — pedi.
— Você quer transformar uma ajuda à sua própria irmã numa cobrança judicial?
— Quero parar de descobrir decisões importantes depois que elas já foram tomadas.
Ele inclinou o corpo para a frente.
— Se você abrir essa história para outras pessoas, sua mãe vai sofrer.
A frase me trouxe de volta ao salão de aniversário.
Percebi que Rafael ainda tentava usar a saúde emocional de Regina como argumento para o meu silêncio.
— Minha mãe já está sofrendo — respondi.
— A diferença é que vocês escolheram o motivo e esperavam que eu escondesse as consequências.
Quando me levantei, ele perguntou se ainda o amava.
A pergunta veio tão fora de lugar que precisei de alguns segundos para respondê-la.
— Não sei o que restou do amor quando você decidiu me humilhar para esconder outra relação.
Voltei ao apartamento naquela tarde para buscar roupas e documentos.
Rafael tinha saído.
Sobre a mesa da cozinha havia uma foto nossa de uma viagem antiga, retirada da moldura da estante.
Não sabia se ele a colocara ali para me comover ou se tinha sido apenas um gesto distraído.
Pela primeira vez, não tentei interpretar a intenção dele.
Separei meus documentos, um caderno com anotações de despesas e alguns objetos pessoais.
Encontrei também uma pequena caixa com fotografias de Bianca na infância.
Por instinto, pensei em guardá-las comigo.
Depois fechei a tampa.
Não queria decidir naquela hora o que fazer com toda a história de nós duas.
Bianca me ligou quando eu estava saindo.
Atendi porque precisava ouvir dela a versão sobre o dinheiro.
— O Rafael disse que te emprestou trinta e oito mil e quatrocentos reais — comecei.
— Quanto você já devolveu?
— Ainda nada.
O estúdio está começando a melhorar.
— Você sabia que o dinheiro vinha da nossa reserva para a reforma?
— Ele disse que podia emprestar.
— Ele disse que tinha me consultado?
Ela demorou a responder.
— Não exatamente.
O silêncio entre nós durou mais do que eu gostaria.
Perguntei quando começara a relação com Rafael.
Bianca primeiro chamou aquilo de confusão, depois de erro, depois de uma coisa que não conseguia explicar.
— Foi antes da primeira transferência? — insisti.
— Foi depois — respondeu.
— A gente começou a se aproximar enquanto ele me ajudava com o estúdio.
Eu não tinha como confirmar cada detalhe naquele instante.
Mas a sequência bastava para entender que o dinheiro e a intimidade tinham crescido no mesmo terreno de segredos.
— E as mensagens que ele mostrou na festa?
— Pergunta para ele.
— Bianca, alguém usou minha foto para montar uma conversa falsa.
Você sabe quem fez isso?
Ouvi um ruído de trânsito do outro lado.
Ela disse que precisava desligar e encerrou a ligação sem responder.
Naquela noite, recebi uma mensagem de Regina perguntando onde eu estava.
Respondi que estava segura e não queria receber visitas sem combinar.
Pouco depois, ela me ligou.
— Tem uma coisa que eu não falei na festa — disse, com a voz baixa.
— Sobre o quê?
— Sobre aquelas mensagens no celular do Rafael.
Eu já tinha visto as imagens antes do aniversário.
Aquela revelação fez a vergonha pública adquirir outro peso.
Minha mãe não apenas conhecia a relação que estavam escondendo.
Ela também sabia que Rafael pretendia me acusar de alguma coisa, e eu precisava entender por que havia escolhido ficar calada.
O que Regina tinha visto antes da festa, e por que não me avisou? Continue na Parte 4 para descobrir como ela explicou seu silêncio.













