Na segunda-feira de manhã, eu estava na recepção de uma clínica odontológica com Júlia, minha irmã de dezessete anos.
Ela apertava meu braço antes da cirurgia.
Eu, por minha vez, fingia que não pensava no emprego que Vanessa me tirara diante de vinte e seis pessoas.
— Você ainda vai receber o salário? — Júlia perguntou.
— Vou resolver isso. Hoje você só precisa cuidar de você.
Não era uma promessa que eu sabia cumprir.
Economizara para pagar o procedimento, mas precisava do trabalho para sustentar nossa casa.
Júlia percebeu meu medo.
— Você sempre diz que está tudo bem quando não está — murmurou.
A frase me acompanhou no corredor.
Pensei na senhora Moretti, que passara meses ouvindo os outros explicarem o que ela supostamente sentia.
Percebi que eu também tinha o hábito de negar meus medos para proteger quem amava.
Era diferente, mas o silêncio deixava marcas parecidas.
No início da tarde, Camila Rocha me telefonou.
A delegada perguntou se eu poderia voltar à mansão para ajudar Teresa a se sentir segura durante uma nova conversa, deixando claro que uma intérprete habilitada conduziria o registro oficial de seu depoimento.
Júlia já estava em recuperação e uma vizinha de confiança concordara em acompanhá-la até nossa casa.
Voltei porque Teresa havia pedido por mim, não porque a polícia exigisse.
Encontrei a senhora Moretti na biblioteca, perto da janela que dava para as roseiras.
Uma intérprete de Libras chamada Daniela estava sentada diante dela.
Daniela se apresentou, perguntou quais sinais Teresa utilizava e respeitou as pausas em que sua mão cansava.
A comunicação não era perfeita; Teresa havia aprendido muitos sinais com a irmã décadas antes, e alguns diferiam do uso atual.
Daniela confirmou cada trecho importante antes de registrá-lo.
Dessa vez, ninguém falava por cima da senhora Moretti.
Ela contou que, uma semana antes do acidente, recebera uma ligação sobre a venda de um galpão construído por seu marido.
Ficara surpresa porque havia rejeitado uma proposta semelhante meses antes.
Procurou documentos, encontrou o recibo da Horizonte e desconfiou que alguém usara cópias de sua assinatura sem autorização.
Em seguida, procurou Henrique, o médico que frequentava a família havia anos, porque queria que ele a acompanhasse a uma consulta e a ajudasse a conversar com Luca sobre a pressão que vinha sofrendo.
Na noite do acidente, ele entrou no carro dela na garagem da mansão.
Durante o trajeto, Teresa mostrou a pasta verde e perguntou se ele sabia por que Vanessa insistia tanto que ela se mudasse.
Henrique respondeu que precisaria atender a uma emergência e pediu para descer antes que chegassem ao destino.
Teresa continuou sozinha.
Pouco depois, ao se aproximar de uma curva, pisou no freio e sentiu que o carro não reagia como deveria.
Não viu quem mexera no veículo e não afirmava ter presenciado a sabotagem.
Disse apenas que o defeito surgira depois de uma sequência de acontecimentos que ela já considerava ameaçadora.
Fiquei aliviada por Daniela ter registrado essa distinção.
Uma acusação precisava ser investigada com rigor.
O que Teresa merecia, acima de tudo, era ser ouvida exatamente como falava, sem exageros que pudessem comprometer sua credibilidade.
Na mesa ao lado, um advogado chamado Paulo Azevedo examinava cópias recebidas do cartório e da empresa imobiliária.
Ele fora contratado por Luca naquela manhã e não tinha vínculo anterior com Vanessa.
Explicou que o compromisso de venda do galpão não transferia o imóvel por si só, mas poderia causar prejuízos, disputas judiciais e novos atos de fraude.
— Usaram uma autorização particular atribuída à dona Teresa — informou. — A assinatura parece semelhante, mas há motivos para questionar sua origem.
Também encontrou uma minuta de procuração muito mais ampla, que permitiria a terceiros representar Teresa em operações patrimoniais.
Essa minuta ainda não tinha produzido os efeitos pretendidos.
O plano, no entanto, parecia avançar em outra direção: a clínica que Vanessa escolhera para a internação estava ligada comercialmente a Henrique.
— Então ele lucraria com a mudança? — Luca perguntou.
— A clínica receberia pelo atendimento — respondeu Paulo. — Isso não prova crime. Mas a relação de interesses deveria ter sido revelada.
Camila colocou sobre a mesa outro documento: um relatório médico enviado por Henrique à clínica, descrevendo Teresa como incapaz de compreender decisões financeiras simples.
Daniela aguardou a conclusão de uma resposta da idosa antes de traduzi-la.
— Ela quer saber por que o doutor escreveu isso sem perguntar a ela sobre os documentos — disse.
Luca se sentou ao lado da mãe.
— Eu deveria ter perguntado antes também — respondeu, com a voz embargada.
Teresa tocou a mão dele, mas não sorriu.
Perdoar a omissão de alguém não era o mesmo que esquecer três meses de desamparo.
O advogado então mostrou a data e o horário atribuídos ao termo da transferência: três de setembro, às duas e dez da tarde.
Com autorização de Teresa, a equipe jurídica solicitara o prontuário correspondente ao hospital.
O registro disponível indicava que ela estava sob sedação naquele período e não tinha condições de assinar aquele documento da forma descrita.
O hospital precisaria confirmar oficialmente os detalhes, mas a contradição era grave.
— Não foi um erro de digitação — Luca falou.
— Ainda precisamos saber quem produziu a assinatura — advertiu Camila.
Foi Beatriz, a amiga de Teresa, quem trouxe a informação mais importante daquele dia.
Ela havia encontrado uma mensagem de voz enviada por Teresa antes do acidente e decidira entregá-la à polícia.
A gravação tinha sido feita quando a senhora Moretti ainda falava normalmente.
— Beatriz, se eu estiver entendendo errado, vou pedir desculpas a todos — dizia a voz cansada. — Mas não autorizei a venda. Vou conversar com Luca depois de mostrar a pasta ao Henrique. Ele prometeu me ajudar.
O áudio terminou com o ruído de uma porta se fechando.
Fiquei olhando para Teresa.
Agora sua voz existia na sala, inteira, de um tempo em que ninguém a chamava de confusa.
Ela chorava, mas não desviava os olhos do telefone.
Depois de escutar a mensagem, Luca entregou ao advogado o acesso aos registros da empresa da família que poderiam esclarecer a negociação.
Paulo o alertou de que algumas movimentações teriam de ser examinadas pelas autoridades, inclusive as que envolvessem seus próprios negócios.
— Faça isso — Luca respondeu. — Não vou esconder papéis para proteger meu nome enquanto minha mãe corre perigo.
No fim da tarde, a delegada recebeu a primeira confirmação de um dado que mudava o rumo da investigação.
O pagamento inicial da operação com o galpão havia partido de uma conta associada a uma empresa administrada por Vanessa.
Mas um dos pagamentos seguintes, feito a um prestador de serviços na semana do acidente, aparecia lançado em uma empresa controlada por Luca.
Luca jurou que jamais autorizara aquela despesa.
Camila não fez acusações precipitadas.
Apenas perguntou quem mais possuía acesso à autorização de pagamentos.
Ele olhou para a cadeira vazia onde Vanessa costumava se sentar.
— Ela tinha acesso à minha conta corporativa — respondeu. — Fui eu quem deu a senha.
A possibilidade de ter aberto a porta para aquela fraude fez Luca baixar a cabeça.
E eu compreendi que a próxima decisão seria a mais difícil: permitir que a investigação alcançasse também o império que ele construíra.
Para saber o que a investigação encontrou nos pagamentos e quem realmente estava por trás do acidente, leia a Parte 5.













