Foi Henrique quem se denunciou primeiro.
Assim que ouviu Teresa mencionar a bolsa, ele perguntou se ela estava falando da pasta verde guardada dentro dela.
Ninguém havia dito que existia uma pasta verde.
Eu olhei para Luca, e ele já estava encarando o médico.
— Como o senhor sabe o que minha mãe carregava? — perguntou.
Henrique ajeitou a gravata.
— Ela costumava levar documentos para as consultas. Talvez eu tenha visto a pasta em outra ocasião.
Teresa bateu duas vezes na mesa.
Depois ergueu a mão, tentando me mostrar uma palavra que eu não conhecia.
Expliquei que precisava repetir com calma.
Ela fechou os olhos por um momento e formou os sinais de *mentira* e *carro*.
— Minha mãe está dizendo que o senhor mente — falei. — Ela se lembra de ter mostrado a pasta ao senhor dentro do carro.
Vanessa se aproximou de Luca.
— Você vai mesmo dar crédito a uma empregada e a uma mulher que mal consegue falar?
— Você continua chamando minha mãe de incapaz, mesmo depois de vê-la responder a perguntas que ninguém havia feito — retrucou ele.
Ela deu um passo atrás.
Luca então pediu aos convidados que se retirassem para a sala ao lado, onde poderiam aguardar a polícia se desejassem prestar depoimento.
— Não vou manter ninguém preso aqui — declarou. — Mas já avisei que documentos podem ter sido falsificados e quero que todos os registros sejam preservados.
Rogério abriu os portões para quem preferisse ir embora, anotando os nomes de quem se dispunha a conversar depois com os investigadores.
A coragem de Luca em enfrentar os próprios convidados era diferente da violência que eu temera.
Mesmo assim, nada naquela casa parecia seguro.
Uma senhora de vestido verde, amiga antiga de Teresa, aproximou-se de mim.
— Ela escreveu uma carta antes do acidente — murmurou. — Disse que precisava falar com um advogado de confiança. Não me contou o motivo.
Chamava-se Beatriz.
Quando perguntei por que só estava dizendo aquilo agora, ela olhou para a porta.
— Porque Vanessa passou três meses dizendo que Teresa inventava problemas. Eu comecei a acreditar.
Senti uma tristeza difícil de explicar.
Teresa não perdera apenas a capacidade de falar com facilidade.
Pouco a pouco, haviam tirado dela a credibilidade.
Luca voltou da ligação com a polícia e me pediu que permanecesse perto da mãe.
Os outros funcionários trouxeram água e uma manta, mas Teresa recusou o elevador.
Queria acompanhar tudo.
Perto da meia-noite, Rogério recebeu um e-mail da seguradora responsável pelo veículo.
Não era o laudo mecânico que procurávamos, mas o registro de recebimento do carro no pátio depois do acidente.
Havia uma fotografia tirada antes de qualquer objeto ser recolhido.
Na imagem, entre o banco dianteiro e o assoalho, aparecia a alça de uma bolsa marrom.
— Disseram que a bolsa tinha desaparecido na remoção — lembrei.
— É o que consta na comunicação feita à família — respondeu Rogério.
Ele abriu a segunda página.
O inventário mencionava um pertence retirado no dia seguinte por uma pessoa que apresentou autorização de um representante dos Moretti.
A assinatura de recebimento era quase ilegível, mas o nome digitado abaixo não deixava dúvidas: Vanessa Bellini.
Luca passou a mão pelo rosto.
— Você retirou a bolsa da minha mãe?
Vanessa cruzou os braços.
— Claro. Pedi que entregassem os objetos pessoais para não se perderem.
— E onde ela está?
— No depósito. Ou foi enviada para a lavanderia. Não me lembro.
— Há três meses você diz que a bolsa sumiu no acidente.
— Eu estava tentando poupar sua mãe de lembranças dolorosas.
Teresa começou a chorar em silêncio.
Toquei a mão dela e esperei, sem pedir que se recompusesse.
Ela me mostrou um sinal simples: *Minha*.
Era a bolsa que seu marido lhe dera.
Ninguém tinha o direito de decidir que ela não precisava mais daquele objeto.
A polícia chegou pouco depois.
A delegada Camila Rocha ouviu a versão de Luca, recolheu cópias dos documentos apresentados e explicou que seria necessário verificar registros originais, ouvir testemunhas e solicitar exame técnico do veículo.
A suspeita era séria, mas não se transformava automaticamente em prova.
Quando falei sobre Libras, Camila pediu que os sinais de Teresa fossem registrados por um intérprete independente, em condições adequadas e sem que possíveis envolvidos ficassem por perto.
Concordei imediatamente.
Eu não queria que uma interpretação minha, mesmo feita de boa-fé, se tornasse a única maneira de a senhora Moretti ser ouvida.
Foi a primeira pessoa naquela noite que me perguntou também se eu precisava de proteção.
Pensei na ameaça de Vanessa e contei o que ela dissera quando nos aproximamos da parede.
Camila anotou minhas palavras, com meu consentimento.
Uma busca voluntária pelos aposentos usados por Vanessa encontrou a bolsa dentro de uma caixa de roupas de inverno.
O fecho dourado estava arranhado, mas Teresa a reconheceu antes mesmo de eu colocá-la sobre a mesa.
Seus olhos acompanharam o objeto como os de alguém que reencontra uma parte da própria história.
A bolsa estava vazia.
A pasta verde não aparecia em nenhum compartimento.
— Foi o acidente — Vanessa disse. — Alguém deve ter perdido os papéis.
Mas, no forro interno, havia uma pequena costura aberta.
Dela escorregou um recibo dobrado, com uma data anterior ao acidente e o nome de uma empresa que ninguém ali mencionara até então: Horizonte Administração Patrimonial.
Luca conhecia o nome.
Seu rosto mudou quando leu o papel.
— Essa empresa fez uma proposta pelo galpão do meu pai — contou. — Minha mãe recusou vender.
Abaixo do valor da proposta, havia uma observação escrita à mão por Teresa: *Pedir cópia do contrato. Não autorizei.*
Na manhã seguinte, o advogado independente que Luca contratara confirmou que existia um compromisso de venda apresentado em nome dela.
Alguém tentara negociar o galpão usando uma autorização que Teresa dizia jamais ter concedido.
A empresa compradora ainda não adquirira o imóvel, mas uma quantia havia sido depositada para garantir a operação.
Teresa me pediu que olhasse o verso do recibo.
Ali havia apenas uma sequência de números e duas iniciais.
Mostrei a fotografia do papel à delegada.
Ela pediu que eu não especulasse sobre o significado até conferir os documentos.
Só que Luca reconheceu as iniciais antes que eu guardasse o telefone.
— H. B. — disse em voz baixa. — Henrique Barros.
Se o médico participara da negociação, por que alguém arriscaria a vida de Teresa para afastá-la de um único contrato?
Eu ainda não sabia que aquele galpão era apenas a primeira peça de um plano muito maior.
Para entender o que Henrique queria da assinatura de Teresa, acompanhe a Parte 4.













