Beatriz respondeu às seis e quarenta da manhã.
A mensagem tinha apenas uma pergunta: “O senhor encontrou o que Charlotte deixou?”
Fiquei olhando para a tela antes de telefonar. Ela atendeu na terceira chamada e não pareceu surpresa ao ouvir minha voz.
— Podemos conversar pessoalmente? — pedi.
— Podemos. Mas não na fundação. Da última vez que estive lá, saí acompanhada por um segurança.
Encontramo-nos numa cafeteria pequena, perto de uma estação do metrô. Beatriz Andrade era uma mulher de cabelos grisalhos presos num coque, com uma bolsa de pano e uma expressão de quem aprendera a escolher cada palavra.
Ela não me cumprimentou como um empresário importante. Apenas colocou uma pasta sobre a mesa.
— Charlotte dizia que o senhor fazia perguntas difíceis quando queria uma resposta — comentou. — Espero que ainda saiba fazer.
Disse que encontrara a aliança, a carta e os três comprovantes. Não mencionei Clarinha de imediato, para não arrastar uma criança a uma história que mal começava a compreender.
Beatriz abriu a pasta e me mostrou uma planilha impressa, com despesas da Casa do Ipê de seis anos antes.
Havia registros de oficinas de leitura, refeições, transporte e manutenção. Em várias linhas, os números pareciam normais. O problema aparecia quando ela colocava ao lado os recibos dos prestadores de serviço.
— A fundação pagava por quarenta refeições diárias em dias em que o espaço recebeu dezessete crianças — explicou. — Pagava por reformas em salas que continuavam interditadas.
— Pode ter havido erro de registro.
— Foi o que pensei. Por isso visitei o local, conversei com a coordenadora e pedi a documentação de apoio.
O modo como Beatriz respondeu me impediu de usar minha primeira dúvida como desculpa para encerrar a conversa.
Ela retirou uma fotografia antiga. Mostrava uma sala com baldes no chão, um pedaço do teto coberto por lona e cartazes infantis nas paredes.
— A fundação pagou pela recuperação desse teto duas vezes. A empresa contratada foi a Horizonte Serviços Administrativos.
Reconheci o nome.
— E quem recebeu o dinheiro?
— A conta pertencia à empresa, não a uma pessoa física. Eu não tinha acesso aos sócios naquela época. Hoje qualquer advogado pode solicitar os registros públicos e examinar as alterações.
Perguntei por que ela não denunciara tudo quando começou a suspeitar.
Beatriz retirou os óculos.
— Fiz um relatório interno. Henrique disse que minhas conferências atrasavam os projetos. Uma semana depois, fui dispensada por quebra de confiança.
Ela mantivera cópias dos documentos que recebera legitimamente durante o trabalho e uma relação das divergências que apontara. Não alegou possuir provas de todos os pagamentos, nem fingiu saber o destino final de cada real.
— Procurei sua esposa depois de perder o emprego. Ela foi a única pessoa que quis ouvir os detalhes.
Imaginei Charlotte entrando naquela mesma cafeteria, pedindo um café que provavelmente deixaria esfriar enquanto fazia anotações.
Beatriz contou que minha esposa visitara a Casa do Ipê e conversara com mães que dependiam do projeto para trabalhar.
— Ela saiu de lá decidida a levar o assunto ao senhor — disse.
— Não levou.
A contadora me encarou.
— Levou, sim. Não sei o que o senhor respondeu, mas ela voltou abatida de uma conversa em casa. Depois me disse que precisava de documentos que ninguém pudesse chamar de boatos.
A lembrança veio com uma nitidez cruel.
Numa noite, Charlotte mencionara irregularidades na fundação enquanto eu respondia a mensagens do escritório. Eu dissera que Henrique conhecia os contratos e que não queria transformar cada reunião de família numa auditoria.
Ela perguntara se eu preferia confiar em uma assinatura ou olhar para quem estava ficando sem atendimento.
Eu respondera que aquilo era uma acusação séria.
Ela não levantara a voz. Apenas dissera:
— Então trate como uma questão séria, Juliano.
Na manhã seguinte, viajei a trabalho. Poucos dias depois, ela morreu.
Voltei para casa com cópias organizadas e um peso diferente no peito. Pela primeira vez, minha culpa não era a fantasia de que poderia ter impedido o acidente. Era algo concreto: eu tivera a oportunidade de escutar uma preocupação e escolhi não fazê-lo.
Telefonei para Laura Mendonça, advogada que acompanhava meus negócios havia anos, mas não prestava serviços à fundação.
Pedi uma auditoria externa, preservação formal dos arquivos contábeis e orientação para examinar documentos sem acusar ninguém antes da verificação.
Laura foi objetiva.
— Primeiro asseguramos o acesso legal. Depois comparamos contratos, entregas e pagamentos. Seu sobrenome não substitui prova.
Naquela tarde, levei a pasta ao escritório da fundação. Henrique apareceu à porta da minha sala antes que eu o chamasse.
Meu irmão tinha o hábito de sorrir enquanto avaliava quanto eu sabia.
— Ouvi dizer que você andou mexendo nas coisas da Charlotte — comentou.
— Encontrei papéis antigos.
— Vai começar tudo de novo? Já se passaram seis anos.
Não respondi à provocação.
Perguntei apenas sobre os contratos da Horizonte.
Ele cruzou os braços.
— Empresa terceirizada. Prestou serviço quando a Casa do Ipê funcionava em capacidade maior. Se houver diferença, deve ser algum lançamento duplicado.
Era uma explicação possível, mas dada depressa demais por alguém que dizia precisar consultar arquivos.
Pedi acesso aos contratos e relatórios de entrega.
Henrique disse que resolveria até o fim da semana. Informei que a auditoria faria a solicitação por escrito.
O sorriso desapareceu.
— Você está deixando estranhos entrarem numa questão da família.
— A fundação administra dinheiro destinado a outras pessoas. Não é só uma questão da família.
Ele saiu sem se despedir.
Antes de voltar à mansão, fui à Casa do Ipê. Conhecia o prédio apenas de fotografias recentes, quase sempre tiradas para relatórios institucionais.
Encontrei uma professora recolhendo brinquedos gastos e duas mães esperando os filhos perto da entrada. Uma delas explicou que as atividades tinham sido reduzidas por falta de recursos.
No mural, um desenho mostrava uma casa amarela cercada de mãos coloridas. Charlotte teria parado ali por vários minutos.
Eu costumava avaliar projetos pelo valor investido. Naquele corredor compreendi que devia ter perguntado quantas portas permaneciam abertas com esse investimento.
Quando cheguei ao carro, Laura telefonou. Encontrara uma convocação que eu não lera, enviada pela secretaria do conselho da fundação na semana anterior.
Henrique propusera uma reunião extraordinária para aprovar a suspensão das atividades da Casa do Ipê por déficit financeiro.
A votação aconteceria dali a dois dias.
O mesmo irmão que não conseguia explicar três pagamentos antigos agora queria encerrar o projeto que Charlotte mais amava, usando a falta de dinheiro como justificativa.
E eu precisava impedir uma decisão precipitada sem repetir o erro de acreditar que minha desconfiança, por si só, era uma prova.
Para saber o que a auditoria encontrou antes da votação e como confrontei Henrique, acompanhe a Parte 4.













