Eu ainda estava ajoelhado quando Clarinha tocou meu braço.
— Não precisa chorar, moço. Eu não quebrei.
Olhei para ela e senti vergonha de tê-la deixado pensar que minha tristeza era culpa sua.
— Você não fez nada errado. Pelo contrário, me ajudou muito.
Camila se agachou ao lado da filha, mas mantinha os olhos no anel.
Pedi que ficássemos na sala, onde Clarinha pudesse desenhar no tapete, perto de nós. Não queria que a menina ouvisse uma discussão atrás de uma porta fechada nem que Camila se sentisse encurralada.
Aproximei a aliança da janela e li a gravação que eu vinha evitando: “Escute antes de decidir”.
Charlotte escolhera aquelas quatro palavras quando mandamos ajustar nossas alianças, depois de dez anos de casamento.
Eu tinha rido, achando que era uma brincadeira sobre meu hábito de dar ordens.
Ela não riu.
Na época, havíamos discutido porque eu dispensara uma funcionária sem ouvir sua explicação para um atraso. Charlotte descobrira que a mulher acompanhara o filho a uma consulta e conseguira reverter minha decisão.
Eu pedira desculpas, mas era mais fácil prometer escutar do que realmente mudar.
Agora as palavras estavam diante de mim, gravadas no ouro que eu acreditava perdido.
— Camila, você já tinha visto essa aliança atrás do retrato?
Ela demorou a responder.
— Não o anel, senhor. Eu vi dona Charlotte mexendo na moldura. Foi na véspera do acidente.
A palavra acidente ainda me atingia como uma pancada.
Seis anos antes, Charlotte morrera quando outro veículo atravessara um cruzamento durante uma chuva forte. O laudo concluíra que o motorista perdera o controle. Não existia razão para transformar aquela perda em outra coisa, embora eu tivesse passado noites querendo encontrar um culpado capaz de devolver minha esposa.
— O que ela estava fazendo?
— Estava muito preocupada. Pediu que eu não mudasse a fotografia de lugar. Disse que precisava conversar com o senhor e que, se alguma coisa atrapalhasse, eu devia lembrá-lo daquele quarto.
— E por que não me lembrou?
Camila baixou a cabeça.
— Tentei falar no dia seguinte ao enterro. Seu irmão me encontrou no corredor primeiro.
Meu irmão mais novo, Henrique, cuidava da administração da fundação beneficente criada por Charlotte. Era uma das poucas pessoas a quem eu ainda delegava assuntos sem conferir cada detalhe.
— O que Henrique disse?
— Perguntou por que eu andava rondando as coisas da patroa. Eu disse que ela tinha deixado um recado. Ele respondeu que eu seria acusada de roubar joias se continuasse inventando histórias.
— Você contou isso a alguém?
— Não. Eu precisava trabalhar. E o senhor mandou fechar o quarto naquele mês. Achei que nunca acreditaria em mim.
Não gostei da resposta, sobretudo porque compreendi por que ela pensara assim.
Eu lembrava de ter ordenado que ninguém me trouxesse objetos de Charlotte. Também me lembrava de Henrique me aconselhar a parar de procurar a aliança, dizendo que a ausência de uma joia não devia prender minha vida ao passado.
Naquele instante, desconfiei pela primeira vez do conforto que aquela frase lhe oferecera.
Fomos até o quarto, deixando a porta aberta para Clarinha nos acompanhar. A menina ficou perto da mãe, segurando um lápis sem ponta.
O cômodo tinha cheiro de madeira limpa. A colcha continuava dobrada aos pés da cama e o retrato permanecia sobre a cômoda.
Charlotte aparecia numa varanda, com o cabelo solto e um sorriso discreto. Eu tirara aquela fotografia numa viagem curta ao interior, quando ainda acreditávamos que poderíamos reservar os domingos para nós.
Camila apontou para a moldura.
— Era assim que ela deixava. Eu só tirava o pó.
Levantei o retrato. Atrás dele, entre o suporte e a madeira, havia uma fita antiga já quase solta.
Preso à parte posterior da moldura, encontrei um envelope pardo muito fino.
Não estava trancado nem protegido por algum mecanismo extraordinário. Bastava ter olhado para trás da fotografia durante todos aqueles anos.
Minhas mãos tremeram ao abrir a aba.
Dentro havia uma carta dobrada e três cópias de comprovantes bancários.
A letra de Charlotte ocupava pouco mais de meia página.
“Juliano, antes de pensar que estou acusando alguém da sua família, confira os documentos originais. Encontrei pagamentos que não chegaram à Casa do Ipê. Não assinei as autorizações que levam meu nome. Fale com Beatriz Andrade, da contabilidade. Ela guardou as primeiras divergências. Quero conversar olhando nos seus olhos, não por telefone. E, por favor, escute Camila.”
Li duas vezes.
A Casa do Ipê era um projeto de acolhimento e atividades para filhos de trabalhadores que Charlotte ajudara a construir na zona sul. Eu financiava parte de suas despesas, mas havia anos que só recebia relatórios resumidos.
— A senhora conhecia Beatriz? — perguntei.
— Conhecia de vista. Ela vinha conversar com dona Charlotte. Depois do acidente, nunca mais apareceu.
Examinei os comprovantes. Três transferências haviam sido feitas a uma empresa chamada Horizonte Serviços Administrativos. Os valores e as datas estavam destacados pela mesma caneta azul que Charlotte usava para anotar receitas na cozinha.
Os papéis, sozinhos, não provavam desvio algum. Podiam ser pagamentos legítimos, cópias incompletas ou uma investigação interrompida por falta de informação.
Mas havia uma linha que reconheci imediatamente: “Autorização da presidência — J. Hargrove”.
Eu nunca autorizara aquelas transferências.
Sentei-me na beirada da cama. Camila permaneceu junto à porta, esperando que eu erguesse a voz.
Em vez disso, pedi desculpas.
Não pela morte de Charlotte, nem pelo que eu ainda não podia confirmar, mas por ter feito uma funcionária acreditar que a verdade lhe custaria o emprego.
Camila chorou em silêncio.
— Eu devia ter insistido, seu Juliano.
— Talvez. Mas você tentou falar. Fui eu quem não deixou espaço.
Clarinha nos observou por um momento e voltou a olhar o retrato.
— A moça bonita gostava daqui?
— Gostava de gente — respondi. — Mais do que de casas bonitas.
Fotografei os documentos, guardei os originais em uma pasta e pedi a Camila que não comentasse nada com Henrique até entendermos o que havia acontecido. Expliquei que ela não estava sendo acusada e que sua rotina de trabalho continuaria normalmente.
Na agenda antiga de Charlotte, guardada na primeira gaveta da cômoda, encontrei um telefone com o nome de Beatriz Andrade. O número ainda existia, segundo a mensagem automática, mas ninguém atendeu.
Enviei apenas meu nome e o pedido de uma conversa reservada.
Antes de sair, li novamente a autorização nos comprovantes. A assinatura era parecida com a minha, inclusive no movimento final da letra. Parecida demais para ser um simples erro de digitação.
Eu precisava descobrir quem tivera acesso aos papéis da fundação — e por que Charlotte escondera tudo de mim até a véspera de morrer.
Para descobrir quem usou meu nome e o que Beatriz sabia sobre os pagamentos, continue na Parte 3.













