“Bento! Vamos embora!”
Ele não se mexeu.
Puxei levemente a coleira azul, esperando que ele viesse comigo como fazia sempre depois das consultas.
Nada.
Bento ficou parado no meio do corredor da clínica veterinária, olhando para um homem que estava sentado a poucos metros de nós.
“Vamos, garoto.”
Dei outro passo em direção à porta.
Foi então que ele fez algo que nunca tinha feito comigo.
Jogou o corpo para trás, escapou quase completamente da tensão da coleira e começou a puxar na direção oposta.
“Bento!”
A Dra. Fernanda, que ainda estava perto da recepção, olhou para nós.
“Está tudo bem?”
“Eu acho que sim.”
Mas eu não tinha certeza.
Bento nunca foi um cachorro especialmente sociável com desconhecidos.
Ele não atacava ninguém, não latia sem motivo, mas precisava de tempo.
Quando alguém que ele não conhecia tentava fazer carinho, normalmente recuava e ficava perto das minhas pernas.
Naquele dia, aconteceu exatamente o contrário.
Ele queria chegar até aquele homem.
O desconhecido aparentava pouco mais de trinta anos. Estava sentado sozinho, com os cotovelos apoiados nos joelhos e uma pasta de exames nas mãos.
Quando percebeu que Bento olhava para ele, ficou imóvel.
Por um segundo, achei que estivesse com medo.
Então ele se levantou devagar.
Bento começou a choramingar.
Não era o som que fazia quando queria comida.
Também não era o choramingo ansioso que soltava antes de uma consulta.
Era diferente.
Mais baixo.
Quase desesperado.
“Ei, calma.”
Segurei a coleira com as duas mãos.
O homem deu um passo.
Bento puxou com tanta força que precisei avançar para não perder o equilíbrio.
“Desculpa”, falei. “Ele nunca faz isso.”
O homem parecia nem ter me ouvido.
Os olhos dele estavam presos no cachorro.
“Não pode ser…”
Eu franzi a testa.
“O senhor conhece ele?”
Nenhuma resposta.
Bento começou a abanar o rabo violentamente.
Então o homem falou uma única palavra.
“Thor?”
Tudo parou para mim.
O corpo de Bento mudou no mesmo instante.
As orelhas se levantaram.
Ele soltou um som curto e puxou a coleira novamente.
“Bento?”
Ele nem olhou para mim.
O homem repetiu, agora quase sem voz:
“Thor…”
Bento tentou correr até ele.
Meu primeiro impulso foi impedir.
Eu não conhecia aquele homem.
Não sabia por que estava chamando meu cachorro por outro nome.
Mas havia alguma coisa naquela reação que não parecia coincidência.
Afrouxei a coleira.
Bento atravessou os últimos passos do corredor e se jogou contra as pernas dele.
O homem cambaleou para trás.
Depois se ajoelhou.
“Meu Deus.”
Bento encostou a cabeça no peito dele, choramingando e abanando o rabo como eu nunca tinha visto.
O homem passou as duas mãos pela lateral do rosto do cachorro.
“Thor… Thor…”
A Dra. Fernanda veio para mais perto.
Eu ainda segurava a ponta da coleira.
“Ele se chama Bento”, falei.
O homem levantou os olhos para mim.
“Bento?”
“Sim.”
“Há quanto tempo ele está com você?”
A pergunta me deixou desconfortável.
“Quase dois anos.”
Ele olhou novamente para o cachorro.
Bento lambia as mãos dele.
“Isso não é possível.”
Aproximei-me um pouco.
“O que está acontecendo?”
Ele respirou fundo, como se tentasse se controlar.
Depois estendeu uma das mãos para Bento.
“Thor.”
O cachorro parou.
“Dá a pata.”
Meu estômago apertou.
Bento levantou imediatamente a pata direita e colocou na palma dele.
Não hesitou.
Não olhou para mim procurando orientação.
Simplesmente fez.
O homem fechou os dedos ao redor da pata.
Os olhos dele ficaram cheios de lágrimas.
Eu conhecia vários comandos que Bento sabia.
“Senta.”
“Fica.”
“Vem.”
Mas eu nunca tinha ensinado “dá a pata”.
Pelo menos não daquele jeito.
“Quem é você?”, perguntei.
Ele demorou para responder.
Passou a mão pelo peito branco de Bento e encontrou uma pequena mancha perto da pata dianteira.
Parecia saber exatamente onde procurar.
Então olhou para mim.
“Ele tinha essa marca quando era filhote.”
Senti minha mão apertar a coleira.
“Como você sabe disso?”
A Dra. Fernanda também estava em silêncio agora.
O homem voltou a olhar para Bento.
“Porque o nome dele não era Bento.”
“Nunca?”
Ele engoliu em seco.
“Para mim, ele era Thor.”
Bento encostou novamente a cabeça no peito dele.
Eu já não conseguia dizer a mim mesma que aquilo era apenas uma reação estranha a um desconhecido.
“Mas como ele…”
O homem me interrompeu.
A voz saiu quebrada.
“Eu achei que você tivesse morrido.”
Olhei para Bento.
Depois para ele.
“Como assim, morto?”
O homem ergueu os olhos para mim.
Mas não respondeu.
Só continuou segurando a pata do meu cachorro como se tivesse acabado de reencontrar alguém que perdera havia muito tempo.













