“Tire essa menina da minha casa. Agora!”
A ordem de Helena Azevedo atravessou o hall da mansão, em São Paulo, antes que Lívia Nascimento conseguisse terminar sua frase. Valentina, de nove anos, deu um passo para trás. A barra do casaquinho vinho que usava se prendeu por um instante na alça da mochila.
“Dona Helena, ela só quer falar com o Diego”, disse Lívia.
“Não use meu filho como desculpa para aparecer aqui depois de tantos anos.”
O porteiro havia autorizado a entrada das duas quando Lívia explicou que precisava conversar com Diego pessoalmente. Mas Helena as interceptara no hall. Atrás dela, uma escadaria de madeira escura subia até o segundo piso. No chão de mármore, o reflexo da janela parecia uma faixa clara separando as visitantes da dona da casa.
Valentina não sabia por que aquela senhora falava com tanto desprezo. Antes de sair de casa, perguntara se poderia conhecer o homem que aparecia numa fotografia antiga, guardada no fundo de uma gaveta. Lívia prometera apenas que tentaria responder algumas perguntas. Não tinha coragem de prometer mais.
“A senhora pode falar comigo sem gritar com ela”, pediu Lívia.
Helena baixou a voz, mas não o tom.
“Você já causou problemas suficientes à nossa família. Saia enquanto ainda estou sendo educada.”
Lívia apertou a mão da filha. Havia passado nove anos tentando decidir se aquela visita seria um gesto de coragem ou outro erro. Na última vez em que estivera naquela casa, não lhe deram a oportunidade de se explicar. Disseram-lhe que não voltasse. Com o tempo, ela aprendera que certas portas permaneciam fechadas mesmo quando ninguém mudava a fechadura.
“Eu não vim pedir dinheiro”, disse.
“Então veio pedir o quê? O sobrenome?”
Valentina ergueu o rosto para a mãe.
“Mãe, a gente pode ir embora.”
A menina tentava soar firme. Era o que fazia quando percebia que Lívia estava preocupada: oferecia uma saída antes mesmo de entender o perigo. Lívia se abaixou até ficar à altura dela e ajeitou a gola do casaquinho, que fora comprado em um brechó e reformado em casa.
“Você não fez nada de errado, meu amor.”
Helena se aproximou da porta principal e fez um sinal para que a abrissem. O gesto foi suficiente para que Valentina puxasse a mochila para o ombro. A alça enganchou num dos botões do casaquinho. Ouviu-se um estalo seco.
Uma peça pequena e dourada caiu no mármore, bateu duas vezes e rolou na direção da escada.
Lívia se moveu para apanhá-la, mas uma voz masculina veio do corredor lateral.
“O que está acontecendo aqui?”
Diego Azevedo parou na entrada do hall. Aos trinta e cinco anos, conhecia cada canto daquela casa e cada mudança de expressão da mãe. Ainda assim, não a via daquele jeito havia muito tempo: imóvel, irritada e, por baixo da irritação, visivelmente apreensiva.
“Diego, volte para o escritório”, disse Helena. “Já estou resolvendo.”
Ele não voltou. Seu olhar passou por Lívia, demorou um segundo a mais no rosto dela e depois encontrou a criança que se escondia junto à parede.
“Lívia?”
Ela levou alguns instantes para responder.
“Eu precisava falar com você. Tentei antes.”
“Você desapareceu”, ele disse, sem elevar a voz.
“Não foi tão simples.”
Helena cortou a conversa.
“Não dê atenção a essa história. Ela trouxe a menina para nos constranger.”
Diego parecia prestes a responder quando viu um brilho junto ao pé da escada. Abaixou-se e recolheu o botão dourado entre o polegar e o indicador. Era pequeno, mais pesado do que parecia e tinha, no verso, um desenho minúsculo que quase desaparecera com o uso.
Uma árvore cercada por um aro fino.
Ele reconheceu o desenho. Fazia parte de um conjunto antigo de peças guardadas entre as lembranças de sua família. Não era algo que se encontrasse numa loja qualquer. E aquela peça tinha uma marca discreta na borda, como se alguém a tivesse prendido e retirado muitas vezes.
“De onde veio isso?”, perguntou.
Valentina respondeu antes que Lívia pudesse impedir.
“É meu. Minha mãe costurou para não perder.”
Diego olhou para a menina. Os olhos escuros, a maneira de apertar os lábios quando estava nervosa, a pequena inclinação da cabeça: alguma coisa nela lhe pareceu dolorosamente familiar. Ele voltou a olhar para Lívia e tentou encaixar os anos que tinham passado entre o último encontro e aquele hall.
“Quantos anos você tem?”, perguntou à criança.
“Nove.”
Helena soltou uma risada curta.
“Diego, um botão velho não significa nada.”
“Eu não disse que significava”, ele respondeu.
Mas sua mão continuava fechada em torno da peça. A casa onde sempre lhe disseram que Lívia partira por vontade própria agora parecia cheia de perguntas que ninguém queria ouvir. Ele se lembrava de ter procurado por ela. Lembrava-se também de mensagens sem resposta e de explicações dadas por outras pessoas.
Lívia percebeu que ele começava a entender alguma coisa. Não sabia se sentia alívio ou medo.
“Diego, eu preciso que você escute até o fim”, pediu.
Ele deu um passo na direção de Valentina, mas parou antes de invadir o espaço dela. A menina segurou com mais força a mão da mãe. Do alto da escada, Helena observava os três sem dizer nada.
Diego abriu a palma e olhou mais uma vez para o botão. Depois encarou Lívia, com a voz tão baixa que ela precisou se aproximar para ouvir.
“Por que você não me contou… que ela é minha filha?”













