O homem olhou de Raul para mim como se alguém tivesse mudado as regras da conversa sem avisá-lo. O motor continuava em marcha lenta, redondo, com aquele grave contido que eu reconheceria mesmo de olhos fechados. Durante anos, eu tinha treinado o ouvido para encontrar ruídos antes que eles virassem defeitos. Naquela garagem, o som mais incômodo não vinha do escapamento. Era o silêncio de Raul.
“Montou como?”, o empresário perguntou.
Raul finalmente desviou os olhos de mim. “Do bloco pra cima. Acerto mecânico, montagem final, conferência de folgas, parte do chicote. Esse conjunto saiu da Vértice Performance quando a Camila ainda estava lá.”
O homem apertou a chave na mão. “A Vértice me vendeu esse carro dizendo que o motor tinha sido reconstruído pela equipe atual.”
“E pode ter sido revisado por eles”, respondi. “Montar originalmente é uma coisa. Revisar depois é outra.”
Eu fechei o capô antes que a conversa ganhasse o tamanho que Raul parecia disposto a dar. Meu uniforme tinha o nome da empresa de guincho bordado no peito. Aquela era a única identificação profissional que eu queria carregar naquele momento.
“Qual é o seu nome?”, perguntei ao homem.
“Eduardo Ferraz.”
“Senhor Ferraz, o carro está funcionando. A chamada foi resolvida. Se quiser, eu acompanho a saída até a rampa e verifico se ele apaga de novo.”
Ele assentiu, ainda desconfortável. “E… desculpa pelo jeito que eu falei.”
Eu já tinha ouvido desculpas melhores e piores. A diferença era que, naquele caso, ele pelo menos parecia saber exatamente pelo que estava pedindo desculpas.
“Tudo bem. Mas da próxima vez talvez seja mais barato perguntar antes de decidir o que alguém sabe fazer.”
Raul soltou um sopro pelo nariz, quase um riso, e eu o fuzilei com os olhos. Ele levantou as duas mãos.
“Eu mereci essa também.”
Eduardo entrou no carro e foi devagar em direção à saída. Eu caminhei ao lado por alguns metros, observando o painel pelo vidro. Nenhuma luz de injeção. Nenhuma oscilação. Quando o cupê desapareceu na curva da rampa, eu voltei para o guincho e comecei a guardar as ferramentas.
Raul não foi embora.
“Quatro anos”, ele disse.
“Eu sei contar.”
“Você sumiu.”
“Eu mudei de trabalho.”
“Você sumiu da oficina, dos grupos, das provas, de todo mundo.”
Fechei a lateral do compartimento com mais força do que precisava. “Talvez eu não quisesse ser encontrada.”
Ele baixou a voz. “Eu procurei você.”
“Procurou tarde.”
Aquilo o acertou. Vi no rosto dele. Mas, antes que respondesse, um rádio chiou perto da cancela e o segurança chamou alguém pelo nome. No mesmo instante, meu celular vibrou. Era Sônia, dona da empresa de guincho e minha chefe havia dois anos.
“Cami, não sai daí ainda. O centro de eventos abriu outra ocorrência. Tem um carro travado no acesso do segundo subsolo. Mesma equipe do evento. Você consegue pegar?”
Olhei para Raul. Ele já tinha entendido pela minha expressão.
“Qual carro?”, perguntei.
Sônia passou a placa. Eu não reconheci. Depois acrescentou: “Disseram que é outro esportivo. Preto. Está com adesivo da Vértice.”
Meu estômago apertou.
“Estou indo.”
Raul ouviu o nome e fechou os olhos por um segundo. “Camila, a Vértice está expondo aqui hoje.”
“Problema deles.”
“Não é só exposição. Eles vão anunciar a volta de uma série limitada. Motores baseados naquele projeto antigo.”
Eu parei de enrolar o cabo da lanterna.
Aquele projeto antigo tinha um nome interno: VX-7. Oficialmente, nunca foi meu. Eu não tinha diploma de engenharia, não assinava responsabilidade técnica e não aparecia nas fotos com patrocinadores. Mas fui eu quem montou os três primeiros conjuntos completos, defini parte das tolerâncias práticas de montagem e criei um método simples de marcação por cores para impedir troca de conectores durante manutenção rápida. A pequena marca azul que eu vira no carro de Eduardo não era decoração. Era minha.
“Quem autorizou usar o projeto?”, perguntei.
Raul demorou meio segundo a mais do que deveria.
“Marcelo.”
O nome atravessou a garagem com mais força do que qualquer buzina.
Marcelo Tavares tinha sido diretor da Vértice quando eu trabalhava lá. Era o homem que sorria para cliente, apertava mão de patrocinador e dizia que segurança vinha em primeiro lugar. Também era o homem que, na noite em que tudo desmoronou, me pediu para assinar um relatório que eu sabia estar errado.
“Eu não trabalho mais pra ele”, falei.
“Eu sei.”
“E não quero saber o que ele está anunciando.”
Raul olhou para as minhas mãos. “Então por que você está tremendo?”
Eu enfiei as luvas no bolso. “Porque estou com raiva. Não confunde com saudade.”
Seguimos até o segundo subsolo, ele alguns passos atrás. O carro preto estava atravessado perto de uma coluna, cercado por dois funcionários do evento. O capô permanecia fechado. Mesmo assim, antes de chegar perto, ouvi a tentativa de partida. O motor girou, falhou e morreu.
Uma segunda tentativa produziu um estalo seco.
Parei.
Raul também.
“Você ouviu?”, ele perguntou.
Ouvi. E reconheci.
Aquele som não tinha nada a ver com o conector mal encaixado do carro de Eduardo. Era um ruído curto, metálico, vindo de uma região que, no VX-7 original, não deveria produzir som algum durante a partida.
Um rapaz com camisa preta da Vértice apareceu correndo pela rampa. “Não mexe! A assistência da fábrica já está vindo.”
Quase ri da palavra fábrica. A Vértice tinha uma oficina grande, bonita e cara. Fábrica era generosidade.
“Eu fui chamada pelo estacionamento”, respondi.
O rapaz me reconheceu? Talvez pelo uniforme, talvez por Raul. Seu rosto mudou quando viu quem estava ao meu lado.
“Engenheiro Raul? O senhor não devia estar lá em cima com o Marcelo?”
“Daqui a pouco.” Raul apontou para o carro. “Quem fez a última revisão?”
“Equipe interna.”
“Quando?”
“Ontem.”
Eu me abaixei sem tocar em nada e iluminei o piso sob o carro. Havia uma gota clara perto da roda dianteira direita. Toquei com a ponta da luva, cheirei e senti o velho reflexo voltar inteiro.
Fluido de arrefecimento.
“Desliga a bateria e não tenta ligar de novo”, falei.
O rapaz hesitou. “Você é do guincho.”
“Sou. E estou dizendo para não ligar.”
Ele olhou para Raul.
Raul não levantou a voz. “Faz o que ela disse.”
Quando o rapaz se afastou para buscar a chave geral, percebi outra coisa: preso sob a borda do para-choque havia um pequeno lacre plástico vermelho. Eu conhecia aquele modelo de lacre. A Vértice o usava para indicar que um conjunto tinha passado por inspeção final.
No VX-7, vermelho significava liberado.
Quatro anos antes, foi um lacre vermelho igual àquele que apareceu numa foto usada para provar que eu teria aprovado um carro que jamais autorizei a sair.
Raul viu para onde eu estava olhando.
“Camila…”
“Não.”
“Eu preciso te contar uma coisa sobre aquele relatório.”
Eu me levantei devagar.
“Você teve quatro anos.”
“Eu sei. E foi por isso que, quando vi você hoje, eu não acreditei.”
A porta do elevador se abriu atrás de nós.
Antes mesmo de me virar, reconheci a voz.
“Raul, o que está acontecendo aqui?”
Marcelo Tavares ainda falava como se toda sala lhe pertencesse.
Dessa vez, porém, quando ele me viu, foi o rosto dele que perdeu a cor.













