Capítulo 1 — O Cavalo de Bronze
O cavalo de bronze voou das mãos de Lucas Monteiro antes que alguém no corredor conseguisse reagir.
Natália Ribeiro viu apenas o brilho escuro da pequena escultura passando sob a luz do lustre.
No instante seguinte, o objeto atingiu sua lateral com força e caiu no chão de mármore.
O barulho ecoou pela mansão inteira.
Natália levou a mão às costelas. A dor foi tão intensa que, por alguns segundos, ela não conseguiu respirar direito.
— Lucas, pare!
Daniel Monteiro havia acabado de aparecer na entrada do corredor.
Aos quarenta e um anos, Daniel era um homem acostumado a ser obedecido. Rico, poderoso e envolvido em negócios que quase ninguém tinha coragem de questionar, ele comandava a própria casa com a mesma autoridade que exercia fora dela.
Mas naquele momento parecia completamente perdido.
Seu filho de cinco anos estava fora de controle.
E a mulher que acabara de ser atingida era a empregada contratada apenas três dias antes.
— Lucas, eu mandei parar!
O menino não obedeceu.
Seu rosto estava molhado de lágrimas. Os punhos pequenos permaneciam fechados, e ele respirava depressa, como se estivesse travando uma batalha que ninguém mais conseguia enxergar.
Lucas avançou novamente e deu um chute na direção da perna de Natália.
Dois seguranças se aproximaram do corredor.
Natália percebeu o movimento.
Poderia ter recuado.
Poderia ter pedido que afastassem o menino.
Poderia simplesmente ter decidido que nenhum salário justificava permanecer naquela casa.
Mas fez algo que ninguém esperava.
Ajoelhou-se lentamente diante dele.
O movimento provocou outra pontada nas costelas. Ela precisou apoiar uma das mãos no chão por um instante.
Quando conseguiu levantar a cabeça, olhou diretamente para Lucas.
— Isso doeu.
O menino parou.
Não foi uma ordem. Não houve grito nem ameaça.
Natália apenas disse a verdade.
Lucas continuou com o punho levantado, mas seus olhos demonstraram surpresa.
Na mansão Monteiro, quase todos reagiam às crises do menino da mesma maneira.
Alguns davam ordens.
Outros prometiam presentes para fazê-lo se acalmar.
E, quando nada funcionava, simplesmente saíam de perto.
Natália não fez nenhuma dessas coisas.
Manteve-se ajoelhada, respeitando a distância entre os dois.
Então colocou a mão sobre o próprio peito.
— Sabe de uma coisa, Lucas? Acho que tem alguma coisa aqui dentro que está machucando você também.
O menino abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Sua expressão começou a mudar.
A raiva ainda estava ali, mas Natália percebeu algo por trás dela.
Medo.
Um medo tão grande que parecia ocupar o corpo inteiro daquela criança.
Daniel também notou a mudança.
Deu um passo na direção do filho.
Lucas imediatamente ergueu o punho outra vez.
Daniel parou.
Natália continuou olhando para o menino.
— Eu não vou sair correndo por sua causa.
Lucas piscou.
Uma lágrima desceu lentamente por seu rosto.
— E também não vou gritar com você — acrescentou ela.
O corredor ficou em silêncio.
Até os seguranças interromperam seus movimentos.
Natália abriu um pouco os braços, sem tentar agarrá-lo.
— Está tudo bem. Pode respirar.
Lucas olhou para ela.
Depois para o pai.
E novamente para Natália.
Seus dedos começaram a se abrir.
O punho levantado baixou devagar.
A expressão do menino se contraiu, como se ele estivesse fazendo um esforço enorme para não chorar.
Então aconteceu algo que deixou todos imóveis.
Lucas correu para Natália.
Não para atacá-la.
Mas para se jogar em seus braços.
O impacto fez Natália prender a respiração por causa da dor nas costelas.
Ainda assim, ela o acolheu.
Lucas enterrou o rosto no uniforme cinza-musgo e começou a soluçar.
Suas mãos agarraram o tecido com tanta força que os dedos ficaram brancos.
Daniel permaneceu a poucos passos.
Aquele homem, capaz de enfrentar adversários perigosos sem demonstrar medo, parecia não saber o que fazer diante do próprio filho.
Natália passou uma das mãos pelos cabelos do menino.
— Pronto. Estou aqui.
Lucas apertou ainda mais o uniforme.
Então sussurrou:
— Não vai embora.
Natália inclinou a cabeça.
— O quê, querido?
A voz dele saiu quase sem som.
— Por favor… não vai embora.
Natália sentiu o coração apertar.
Não era a súplica de uma criança que queria evitar um castigo.
Era o pedido desesperado de alguém que tinha certeza de que seria deixado para trás.
— Estou aqui, Lucas.
O menino balançou a cabeça contra o ombro dela.
— Não!
Natália ficou imóvel.
Lucas ergueu um pouco o rosto.
Seus olhos estavam vermelhos, e as lágrimas continuavam escorrendo.
— Todo mundo fala isso.
A frase atingiu Daniel de uma maneira que nenhuma das agressões anteriores havia conseguido.
Ele olhou para o filho.
Depois para a mulher ajoelhada no chão.
Por fim, baixou os olhos para o cavalo de bronze caído perto da parede.
Natália percebeu que a respiração de Lucas começava a se acalmar.
Mas não conseguiu ignorar a expressão de Daniel.
O homem parecia ter acabado de compreender algo terrível.
Foi quando uma voz feminina interrompeu o silêncio.
— Senhor Monteiro?
Helena Duarte estava próxima à escadaria.
Aos cinquenta e quatro anos, era a governanta mais antiga da mansão. Conhecia os horários, as exigências e os hábitos daquela família melhor do que qualquer funcionário.
Seu olhar passou pela escultura no chão.
Depois por Natália, ainda abraçada ao menino.
Não demonstrou preocupação com a dor da empregada.
Parecia muito mais incomodada com o fato de Lucas estar sendo consolado por alguém que não fazia parte da família.
— Senhor Monteiro, vou entrar em contato com a agência.
Natália levantou os olhos.
Helena continuou, no mesmo tom profissional:
— Podemos ter outra funcionária aqui amanhã cedo.
Lucas ficou rígido.
Sua respiração pareceu falhar por um instante.
As duas mãos se fecharam novamente no uniforme de Natália.
Ela sentiu o menino tremer.
Daniel percebeu.
Olhou para Helena.
— Não.
A governanta franziu a testa.
— Senhor?
— Ninguém vai ligar para agência nenhuma.
Helena permaneceu imóvel.
Daniel falou mais baixo, mas com uma firmeza que não admitia discussão.
— Natália não vai ser substituída.
Lucas levantou lentamente o rosto.
Pela primeira vez desde que o cavalo de bronze atravessara o corredor, havia alguma esperança em seus olhos.
Natália viu aquela pequena mudança.
Também viu Daniel respirar fundo, como se acreditasse que finalmente tinha conseguido proteger o filho de alguma coisa.
Helena, porém, não pareceu surpresa.
Ela olhou diretamente para Daniel.
E disse, com uma tranquilidade assustadora:
— O senhor disse a mesma coisa da última vez.













