“Não encosta nesse carro!” O homem bateu a mão no capô antes que eu conseguisse levantá-lo.
Eu tinha acabado de estacionar o guincho no subsolo de um centro de eventos na Faria Lima, em São Paulo. Chamaram a empresa porque um cupê esportivo preparado simplesmente não pegava, e a saída da garagem estava começando a travar. Eu estava de uniforme, cabelo preso e luvas de trabalho. Para ele, aquilo parecia ser informação suficiente sobre mim.
“Só coloca no caminhão e leva pra concessionária”, disse ele, segurando a chave como se eu fosse quebrar o carro só de olhar.
“Se eu puder verificar primeiro, talvez você nem precise do guincho.”
Ele riu de lado.
“Você é motorista. Chama um técnico.”
Aquilo não era novidade. O que me incomodou foi o carro.
Quando cheguei perto, reconheci imediatamente a disposição sob o capô, o chicote, os pontos de fixação e até uma pequena marca azul perto de um conector. Eu conhecia aquilo bem demais. Mas não disse nada.
O segurança da garagem pediu que ele liberasse a passagem, e o homem ficou ainda mais irritado.
“Cinco minutos”, falei. “Se eu estiver errada, eu mesma subo o carro.”
Ele cruzou os braços.
Levantei o capô. Enquanto ele reclamava ao telefone, encontrei o que suspeitava: um conector do chicote estava mal encaixado. Não era uma falha grave. Era o tipo de coisa que podia acontecer depois de uma revisão apressada.
“Dá a partida.”
“Você mexeu em quê?”
“Só dá a partida.”
Ele entrou, girou a chave, e o motor pegou na mesma hora.
O barulho fez duas pessoas perto do elevador virarem a cabeça. O homem saiu do carro sem aquele sorriso.
“Foi sorte”, murmurou.
Foi então que ouvi alguém atrás de mim.
“Camila?”
Eu congelei.
Raul Menezes, um engenheiro que eu não via havia anos, vinha em nossa direção com o crachá do evento pendurado no pescoço. Ele olhou para mim, depois para o motor ainda funcionando.
O empresário perguntou:
“Você conhece ela?”
Raul nem olhou para ele.
“Conheço. Foi ela que montou esse motor.”
A chave ficou imóvel na mão do homem.
E eu percebi que a pergunta que vinha evitando havia anos finalmente estava prestes a voltar.
Quer saber por que eu deixei aquela vida para trás e por que Raul ficou tão surpreso ao me ver ali? Escreva “quero saber” nos comentários. Quando eu adicionar o link com o restante da história, volto para avisar quem quiser continuar comigo.













